O Deus de Paz

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Partes de um sermão de Charles Haddon Spurgeon, traduzidas e adaptadas pelo Pr Silvio Dutra.

“Ora, o Deus de paz seja com todos vós. Amém.” (Romanos 15.33)

Paulo aconselhou os romanos a lutarem. Três versos antes de nosso texto, ele realmente dá-lhes uma exortação para lutarem, e ainda profere aqui uma oração para que o Deus de paz pudesse ser com todos eles. Ele diz: “Rogo-vos, irmãos, pelo amor do Senhor Jesus Cristo, e pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus por mim.” Essa é uma luta santa, e é tal conflito que queremos sempre ver na igreja – uma contenda na oração, um rodear o trono da graça juntos e clamando diante de Deus, até que responda as nossas orações.

Há também um outro tipo de luta que é permitido na igreja: a doce disputa em que devemos nos destacar de todos os demais no amor, no serviço e na fé. Que Deus nos envie mais conflitos desse tipo em nossas igrejas – uma contenda na oração, uma contenda no dever.

Se você considerar Deus na trindade você vai ver que em cada uma das Pessoas – o Pai, o Filho, e o Espírito Santo, o título “o Deus da paz” é adequadamente aplicado. Há Deus, o Pai eterno – ele é o Deus da paz, porque desde toda a eternidade planejou a grande aliança de paz, pela qual pode trazer rebeldes para perto dEle, e fazer estranhos e estrangeiros co-herdeiros com os santos, e co-herdeiros com seu Filho Jesus Cristo. Ele é o Deus da paz, pois justifica e, assim, implanta a paz na alma que Ele aceitou em Cristo e, como o Deus da paz, Ele o trouxe novamente dentre os mortos, e ordenou a paz – a paz eterna com seus filhos, através do Sangue da eterna aliança.

Assim também é Jesus Cristo, a segunda pessoa, o Deus de paz porque “Ele é a nossa paz. Quem nos uniu e derrubou o muro de separação que havia entre nós.” Ele faz a paz entre Deus e o homem. Seu sangue aspergido sobre a ira ardente de Deus transformou-a em amor, através da mediação maravilhosa de Jesus Cristo – e Ele é o Deus da paz, porque ele faz a paz na consciência e no coração. Quando ele diz: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos”, ele dá “descanso”, e com o descanso dá a paz de Deus que excede todo o entendimento e que guarda as nossas mentes e corações. Ele é o Deus da paz na Igreja, porque onde quer que Jesus Cristo habite, Ele cria uma santa paz.

Assim também é o Espírito Santo, o Deus da paz. Ele trouxe a paz no início da criação, quando a matéria caótica estava em confusão, e pairando sobre as águas fez aparecer a ordem onde antes não havia nada além da escuridão e do caos. Assim, nas almas caóticas em trevas Ele é o Deus da paz. Quando os ventos das montanhas do Sinai, e rajadas do abismo do inferno varrem a alma angustiada, quando, andando para a tribulação, a nossa alma desfalece dentro de nós, Ele fala de paz para os nossos problemas, e dá descanso para os nossos espíritos. Quando por preocupações terrenas que são atiradas sobre nós, como as ondas do mar, para cima e para baixo, Ele diz: “haja paz.” Ele será o Deus de paz, quando na última hora de nossa vida, deve silenciar todos os uivos dos demônios, nos dará a paz com Deus por meio de Jesus Cristo, e nos conduzirá a salvo para o céu. .

Vamos agora entrar no assunto, e ver onde Deus é um Deus de paz. Destacamos que ele é o Deus da paz, porque criou originalmente a paz. Ele é o Deus da paz, pois ele é o restaurador de todas as coisas, embora as guerras tenham eclodido por causa do pecado. Ele é o Deus da paz, porque ele preserva a paz quando ela é feita, e é o Deus da paz, porque deve, finalmente, estabelecer a paz perfeita e consumada entre todas as suas criaturas e Si mesmo. Assim, Ele é o Deus da paz.

Primeiro de tudo, ele é o Deus da paz, porque nada criou além de paz. Volte em sua imaginação ao tempo em que o Pai majestoso saiu de sua solidão e iniciou a obra da criação. Imagine a si mesmo no momento em que Ele libera a palavra e a primeira matéria é formada. Antes da criação não havia nem espaço, nem tempo, nem qualquer coisa existente.

Veja se na grande harpa da natureza, há uma cadeia que, quando tocada pelo dedo do Criador apresenta discórdia? Veja os tubos deste grande órgão que Deus fez para tocar harmoniosamente.
Existem baluartes formados para a guerra? Há lanças e espadas? Há clarins e trombetas? Porventura Deus criou tudo com o fim de destruir suas criaturas e desolar seus reinos? Não, tudo é pacífico acima, abaixo e ao redor, tudo é paz, não há mais nada, senão calma e tranquilidade.

Veja quando Ele faz os anjos. Ele fala e asas de serafins começam a voar, e querubins atravessam o ar em asas de fogo. Ele fala, e uma multidão de anjos em suas diversas hierarquias são criados, enquanto Jesus Cristo como um poderoso príncipe dos anjos é decretado para ser sua Cabeça. Existe agora em qualquer um desses anjos um sinal de tristeza? Quando Deus os criou o fez com o propósito de qualquer um deles se tornar Seu inimigo? Pergunte aos anjos, e eles dizem: “Nós não fomos feitos para a guerra, mas para a paz. Ele não nos formou espíritos de batalha, mas espíritos de amor, alegria e tranquilidade. E se eles pecaram, Ele não os criou para o pecado. Eles fizeram isso, e trouxeram desgraça para o mundo por sua própria vontade. Deus não criou nenhuma guerra. Deus não é o autor de qualquer guerra, ou qualquer contenda. Satanás concebeu a rebelião, mas Deus não foi o autor da mesma. Ele pode desde toda a eternidade ter previsto isso, e pode até ser dito em algum sentido que ordenou que ela manifeste a Sua justiça e a Sua glória, e para mostrar a sua misericórdia e soberania em redimir o homem, mas Deus não teve qualquer participação direta nisto.

Vá para o jardim do Éden: ande para cima e para baixo – veja seus caramanchões; descanse sob suas árvores, e participe de seus frutos. Você vê o menor sinal de guerra? Não há nada de tumulto e barulho – nenhuma preparação de destruição. Veja Adão e Eva: seus dias são luz do sol perpétuo, suas noites são noites amenas de doce repouso. Deus nada colocou em seus corações, que pudesse perturbá-los, Ele não tem má vontade em relação a eles, mas, pelo contrário, anda com eles na noite sob as árvores na viração do dia. Ele condescende em falar com as suas criaturas, e manter comunhão com elas. Ele não é, em nenhum sentido, o autor da presente confusão neste mundo, que foi provocada pelos nossos primeiros pais, através da tentação do maligno. Deus não criou este mundo para a luta. Quando ele fez isso primeiro, paz, paz, paz, foi a ordem universal do dia. Que possa vir um tempo em que a paz, uma vez mais, será restaurada para esta grande terra, e a tranquilidade para este mundo! Você não percebe que Deus é o Deus da paz, pelo que criou originalmente? Quando ele declarou sua criação como “muito boa”, era inteiramente sem a menor exceção, a criação pacífica. Deus é o Deus da paz.

Mas, em segundo lugar, ele é o Deus da paz, porque ele restaura a criação. Nada revela que um homem é muito afeiçoado à paz do que quando ele tenta fazer as pazes entre outros, ou, quando outros o têm ofendido, ele se esforça para fazer a paz entre ele e eles. Se eu fosse capaz em todos os momentos de manter a paz comigo mesmo, e nunca provocasse uma briga, eu deveria, naturalmente, ser considerado um espírito de paz, mas se outras pessoas optam por discutir e discordar de mim, e eu desejo e tenho o propósito definido para trabalhar para promover a reconciliação, então todo mundo diz que eu sou um homem de paz. “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados de filhos de Deus.” Deus é o grande pacificador, e assim ele é de fato o Deus da paz.

Quando Satanás caiu, houve guerra no céu. Deus fez a paz lá, porque expulsou Satanás e lançou todos os seus exércitos rebeldes no fogo eterno. Ele fez as pazes com a Sua força e poder e majestade, pois os expulsou do céu, para nunca mais poluírem o solo sagrado da felicidade, e para nunca mais colocarem em perigo o Paraíso enganando seus pares no céu. Então, ele fez a paz no céu pelo Seu poder. Mas quando o homem caiu, Deus não fez a paz com o Seu poder, mas por Sua misericórdia. O homem transgride. Pobre homem! Observe como Deus vai atrás dele para fazer as pazes! “Adão, onde estás?” Adão nunca disse: “Deus, onde estás?” Mas Deus veio a Adão, e parecia dizer com uma voz de afeto e piedade “Adão, pobre Adão, onde estás? Porventura se tornou um Deus? O espírito maligno, disse que tu querias ser um Deus – tu és assim? Onde estás agora pobre Adão? Tu estiveras uma vez em santidade e perfeição, onde estás agora?”

E ele viu um Adão ocioso fugindo de seu Mestre, fugindo do grande pacificador, para esconder-se sob as árvores do jardim. Mais uma vez Deus chama: “Adão, onde estás?” Mas ele diz: “Ouvi a tua voz no meio do jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.” E Deus diz: “Quem te mostrou que estavas nu?” Você pode ver que Ele é um pacificador, mesmo assim, mas quando, depois de ter amaldiçoado a serpente, Ele vem para conversar com Adão, e você pode vê-lO como um Pacificador ainda mais. “Eu vou”, Ele disse à serpente, “por inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. “Lá, foi estabelecida a paz pelo sangue da cruz. Não se concebe, no entanto, que essa foi a primeira preparação de paz que Deus já fez. Essa foi a primeira exibição dela, mas já tinha estabelecido a paz por toda a eternidade. Através do pacto que fez com Jesus Cristo desde toda a eternidade, o povo de Deus estava em paz com Deus. Embora Deus tivesse visto que o homem cairia, e se tornaria seu inimigo, todavia Ele planejou um pacto com Jesus, onde Jesus estipulou que Ele iria pagar as dívidas de todo o Seu povo – que seria redimido e restaurado, e o Pai em Seu nome perdoou os pecados do Seu povo e o justificou, tirando a sua culpa, absolvendo-o e aceitando-o e recebendo-o para viver em paz com Ele.

Há uma guerra no mundo agora; há um espírito maligno andando para lá e para cá, um ser inquieto, ansioso, como um leão que busca para devorar, andando em lugares áridos, buscando repouso e não encontrando, e há homens enfeitiçados por esse espírito maligno que estão em guerra com Deus e em guerra uns com os outros, mas há um tempo que vem, vamos esperar mais um pouco, quando haverá paz na terra e paz em todos os domínios de Deus.

Em mais alguns anos nós teremos uma paz duradoura e permanente na terra. Talvez, amanhã, Jesus Cristo, o Filho de Deus virá de novo. Não sabemos nem o dia nem a hora em que o Filho do homem virá, mas no tempo oportuno Ele descerá do céu com alarido, e com o barulho de trombeta, Ele vem, mas não como uma vez Ele veio – como um homem humilde, mas como um monarca glorioso e exaltado. Em seguida, fará cessar as guerras. O dia está chegando, e rapidamente, quando não deve ser encontrado na Terra um único homem que odeie a seu irmão, mas quando cada um deve encontrar em qualquer outro irmão um amigo.


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