O Amigo do Pecador

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Citações de um sermão de C. H. Spurgeon, traduzidas e adaptadas por Silvio Dutra.

“Um amigo de publicanos e pecadores.” (Mateus 11.19)

Uma grande verdade foi dita em tom de zombaria, e um grande tributo à virtude foi involuntariamente pago pelos lábios sinistros da malícia. Os inimigos de nosso Senhor Jesus Cristo pensaram que marcariam com infâmia, e entregariam o seu nome ao desprezo eterno, ao chamá-lo de “amigo de publicanos e pecadores”. Mortais míopes! Seu escândalo publicou sua reputação. Neste dia, o Salvador é adorado pelo título que foi cunhado como um insulto. Isto foi projetado para ser um estigma, para que todo homem bom tremesse e ficasse envergonhado, mas tem provado ser um estímulo que ganha e encanta, o coração e a alma de todos os santos. Os santos no céu, e os santos na terra se deleitam de cantar assim ao Senhor:

“Salvador dos pecadores eles proclamam,
Pecadores dos quais eu sou o principal. “

O que os judeus invejosos disseram com amargura, foi transformado pelo Espírito Santo em algo muito gracioso. Onde eles derramaram frascos de ódio, odores de incenso sagrado surgiram. Consciências pesadas têm encontrado um doce bálsamo na própria expressão: Jesus, “o amigo de publicanos e pecadores”, tem provado ser um amigo para eles, e eles se tornaram seus amigos, tão completamente que ele tem justificado este título que seus inimigos lhe deram em afronta irreverente.
Vamos tentar explicar como ele era amigo de pecadores, e como ele mostra que ele ainda é o mesmo.

I. Nosso Senhor mostrou-se em seu próprio tempo como amigo dos pecadores.
Que melhor prova disso ele poderia dar do que vir da majestade da casa de seu Pai para a humildade da manjedoura de Belém? Que melhor prova do que deixar a sociedade de querubins e serafins, para se deitar na manjedoura onde os bois eram alimentados, e se tornar associado a homens caídos? A encarnação do Salvador na própria forma dos pecadores, tomando sobre si a carne dos pecadores, nascendo de um pecador, tendo um pecador a reputação de ser seu pai – e se fazendo homem, o que é equivalente a estar na mesma forma dos pecadores, certamente isso seria o suficiente para provar que ele é amigo do pecador.

Quando você pegar a genealogia de sua linhagem terrena e começar a lê-la completamente, você vai ficar impressionado com o fato de que existem, senão poucas mulheres mencionadas nela, e ainda três das mencionadas eram prostitutas, de modo que, mesmo em sua linhagem houve a mancha do pecado, e o sangue de um pecador teria corrido em suas veias se ele tivesse sido o verdadeiro filho de José, mas na medida em que ele foi gerado pelo Espírito Santo, no ventre da Virgem, nele não havia pecado, mas sua linhagem corria nas veias dos pecadores. Tamar, Raabe, e Bate-Seba são três nomes que trazem a lembrança de atos de vergonha, e ainda estas se encontram nos registros como ancestrais do Filho de Maria, amigo do pecador!

Tão logo Jesus Cristo, tendo nascido em semelhança da carne do pecado, chegou aos anos da maturidade, e iniciou a sua real vida de trabalho, ele logo revela sua amizade para com os pecadores por associar-se com eles. Você não o encontra em pé, a uma distância, emitindo seus mandados e suas ordens para os pecadores, com o fim de torná-los melhores, mas você o encontra vindo entre eles como um bom operário que está no seu trabalho, ele toma o seu lugar onde o pecado e a iniquidade estão, e ele, pessoalmente, trata de lidar com isso. Ele não prescreve uma receita e envia os seus medicamentos com os quais curará a doença do pecado, mas ele vem à casa do enfermo, e há cura no toque; há vida no olhar.

O grande Médico tomou sobre si as nossas dores levou as nossas enfermidades, e assim provou ser muito amigo do pecador. Algumas pessoas parecem ter um amor filantrópico para com o caído, mas ainda assim eles não o tocam com um par de pinças. Eles iriam levantá-lo se pudessem, mas deveria ser por alguns instrumentos pelos quais eles não se degradem ou contaminem suas próprias mãos. Mas não o Salvador. Parece enfiar o seu braço gracioso na lama, para puxar para cima o perdido que se encontra no terrível poço de lodoso barro. Ele toma a picareta e a pá, e vai trabalhar na grande pedreira para que ele possa remover as pedras brutas que ele mesmo vai polir depois com suas próprias lágrimas amargas e suor de sangue, para que possa torná-los aptos a brilharem para sempre no glorioso templo do Senhor seu Deus.

Ele entra em contato direto e pessoal com o pecado, sem ser contaminado por ele. Ele vem próximo a ele tanto quanto possa vir. Ele come e bebe com os pecadores. Ele se senta à mesa do fariseu, um dia, e não se levanta porque há uma multidão de pessoas ruins que estaria se aproximando dele. Outro dia, ele vai até a casa do publicano, e o publicano tinha, sem dúvida, sido um grande roubador em sua época, mas Jesus fica lá, e nesse dia veio a salvação à casa daquele publicano. Amados, este é um traço doce sobre Cristo, e prova o quão real e verdadeiro foi o seu amor, que ele fez suas associações com os pecadores, e não evitou até mesmo o principal deles.

Não, ele não veio somente entre eles, mas ele estava sempre em busca de seu bem por meio do seu ministério. Se houvesse qualquer pecador, uma ovelha perdida da casa de Israel, Cristo iria buscar esse pecador. Nunca houve um pastor tão incansável; ele procurou o que estava perdido até que ele o encontrou. Uma de suas primeiras obras de misericórdia foi em uma viagem, e Samaria estava um pouco fora de seu caminho, mas vivia em uma cidade desse país uma mulher – ah! quanto menos se falar dela melhor. Ela teve cinco maridos, e o que estava com ela na ocasião não era seu marido, nem foram qualquer um dos outros também. Ela era uma vergonha para essa cidade de Samaria. Mas Jesus, que tem um olho afiado para os pecadores, e um coração que bate alto para eles, decide salvar aquela mulher. Estando cansado, senta-se em um poço para descansar.

A providência especial traz a mulher para o poço. Os convencionalismos da sociedade proíbem-no de falar com ela. Mas ele rompe o fanatismo estreito do preconceito. Uma samaritana por nascimento – ele não se preocupa com isto, mas será com isto mais santo sendo condescendente a ter uma conversa familiar com ela – uma desonra para o seu sexo? Ele o fará. Seus discípulos podem ficar surpresos quando voltarem e encontrá-lo conversando com ela, mas ele vai fazer isso.

Ele começa a abrir a Palavra da vida para a sua compreensão, e aquela mulher torna-se o primeiro missionário cristão do qual já se ouviu falar, porque ela correu de volta para a cidade, deixando seu cântaro, e clamando: “Vinde, vede um homem que disse-me todas as coisas que eu fiz: não é este o Cristo?” E eles vieram e creram, e houve grande alegria naquela cidade de Samaria.

Você sabe também, que havia um outro pecador. Ele era um mau sujeito temido. Ele tinha magoado constantemente os rostos dos pobres, e tomava mais deles por meio de tributação do que deveria ter cobrado, mas o homenzinho era curioso, e ele tem que ver o pregador e o pregador deve amá-lo; porque eu disse que havia uma atração maravilhosa de Jesus para um pecador. Como se o coração do pecador fosse um pedaço de ferro, o coração de Cristo como um magneto, e onde quer que houvesse um pecador a magnetita começaria a senti-lo, e logo o pecador começaria a sentir a magnetita também. “Zaqueu”, disse Cristo, “apressa-te, e desce, pois hoje me convém pousar em tua casa”, e logo vem o pecador, e veio a salvação à sua casa naquela hora, Oh! Cristo nunca pareceu pregar tão docemente como quando ele estava pregando o sermão a um pecador.

Eu teria gostado de ter visto aquele seu querido rosto quando ele clamou: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”, ou, melhor ainda, de ter visto seus olhos correndo com toda chuvas de lágrimas quando ele disse: “Jerusalém, Jerusalém. . . quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, mas vocês não quiseram!” ou ter ouvido pregar aqueles três grandes sermões sobre os pecadores quando descreveu a mulher como varrendo a casa para que pudesse encontrar a moeda que havia perdido, e o pastor que vai de monte em monte, após a ovelha perdida, e o pai correndo para acolher aquele pródigo andrajosamente vestido, beijando-o com beijos de amor, vestindo-o com a melhor roupa, e convidando-o para a festa, enquanto eles dançavam e se alegravam, porque o que estava perdido foi encontrado, e aquele que estava morto estava vivo novamente.

Ora, ele era o mais poderoso dos pregadores para os pecadores, sem sombra de dúvida, Oh! como ele os amou! Não importa os fariseus: ele tem trovões para eles. “Ai de vós, escribas e fariseus!” Mas quando os publicanos e as meretrizes vêm, ele tem sempre a porta da misericórdia entreaberta para eles. Para eles, ele sempre tem uma palavra de conforto, alguns dizeres amoroso, como este, “Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens”. “O que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”.

E vocês sabem, queridos amigos, que ele não prova seu amor apenas por pregar a eles, e viver com eles, e por sua paciência em suportar a contradição deles contra ele, e todas as suas palavras e obras más, mas ele provou isso por suas orações também. Ele usou sua poderosa influência com o Pai em favor deles. Ele levou os seus nomes poluídos nos seus lábios santos, ele não tinha vergonha de chamá-los de irmãos. A sua causa se tornou a sua própria, e por seu interesse seu coração pulsava. Quantas vezes nas montanhas frias ele manteve seu coração aquecido de amor por eles! Quantas vezes o suor escorreu pelo seu rosto quando ele estava numa agonia de espírito por eles, eu não posso lhe dizer, mas eu sei que naquela mesma noite, quando ele suou com grandes gotas de sangue que corriam até ao chão, ele fez esta oração, depois de ter orado por seus santos, ele passou a dizer – “Não oro somente por estes, mas também por aqueles que hão de crer em mim pela sua palavra.”

Aqui, verdadeiramente, o coração do Salvador ficou borbulhando e jorrando sobre todos os pecadores. E você nunca pode esquecer que suas últimas palavras foram: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” Embora deliberada e maliciosamente lhe traspassaram as mãos e os pés, mas não havia palavras de raiva, mas apenas aquela curta, amorosa, calorosa oração “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!” Ah! amigos, se nunca houve alguma vez um homem que fosse um amigo para os outros, Jesus foi amigo dos pecadores por toda a sua vida.

II. Observemos o que Cristo está fazendo agora para os pecadores.
Há um princípio profundo envolvido aqui – um princípio que o fariseu do passado, não conseguia entender, e o coração frio da humanidade é lento para abraçá-lo ainda hoje. Tenho duas explicações para oferecer da maneira em que Jesus pessoalmente se revela ser o amigo dos pecadores.

Certa ocasião uma mulher foi trazida a Jesus pelos escribas e fariseus – ela era adúltera, ela tinha sido flagrada no próprio ato. Eles dizem “amigo dos pecadores” que sentença Moisés iria pronunciar em tal caso, e lhe perguntam, o que dizes tu? Isto diziam para o tentar. Eles não estavam muito preocupados com a criatura infeliz, a acusação que eles tinham a intenção de estabelecer era contra o Homem de Nazaré. Você sabe como ele se desfez do caso, e colocou os acusadores fora de combate. Ele não trouxe a pecadora perante o magistrado, ou melhor, ele não faria um juízo parcial, e ainda mais ele atuaria tomando parte do próximo, que poderia achar nele um amigo.

A noção de justiça entre os escribas e fariseus era confundida com severidade rígida, e que para a maldade, ela só seria vergonhosa, quando fosse descoberta. Aquela que havia sido flagrada deveria ser apedrejada. A amizade real de Jesus aparece em seu destaque relativo ao objeto de piedade, e onde eles o acusaram de crime por acobertar o criminoso, ele estava realmente colocando o machado na raiz da árvore, e abrigando as vítimas enquanto ele censurava os governantes arrogantes, cujos vícios secretos foram a causa verdadeira da miséria que havia caído sobre a escória da nação.

Recomendo esse pensamento para sua consideração. Quando se diz dele, que é um “amigo de publicanos e pecadores”, que estava implícito que ele não era amigo de escribas e fariseus. Mais uma vez, eu quero que você perceba que o ofício que Cristo veio cumprir para com os pecadores era de uma pura amizade sem mistura. Vamos dar-lhe uma ilustração. Há uma história terrível: um assassinato foi cometido, e o pobre coitado que o cometeu cortou a própria garganta. O policial e o cirurgião se deslocam rapidamente para o local. Um atende unicamente ao interesse da lei, o outro atende ao interesse da humanidade. Diz o oficial de polícia, “homem, você é meu prisioneiro”; o médico diz, “meu caro amigo, você é meu paciente”.

E agora ele coloca a mão delicada sobre a ferida, ele estanca o sangue, aplica unguentos, sutura o ferimento, e curvando-se escuta a respiração do homem, verificando o seu pulso, e elevando levemente a sua cabeça, ele administra a ele um remédio. E o leva para o hospital, dá instruções à enfermeira para assisti-lo, e dá ordens quanto à dieta nutritiva que ele é capaz de suportar. Dia após dia, ele ainda lhe visita, e usa toda a sua habilidade e toda a sua diligência para curar as feridas do homem. Isto é uma maneira de lidar com criminosos? Certamente não é a maneira pela qual agiria o oficial de polícia. O negócio deles é descobrir todos os vestígios e evidências de sua culpa. Mas o médico assistente não está preocupado com o homem como um malfeitor, mas como um sofredor.

Assim é com o pecador. Moisés é o oficial de justiça que vem para prendê-lo. Cristo é o bom médico que trata de curá-lo, ele diz que lida com a doença, com as feridas, com os sofrimentos dos pecadores: “Ó Israel, tu tens destruído a ti mesmo, mas em mim está a tua ajuda.”. Ele é, portanto, seu amigo. Claro que o paralelo só irá percorrer um pequeno caminho. No caso do assassino, o cirurgião iria entregar o seu paciente à polícia assim que a ferida fosse curada, mas na condução de nosso Salvador, ele redime a alma sob a lei, e a livra da penalidade relativa ao pecado, bem como a restaura de suas lesões auto-infligidas.

Mas, oh! se eu pudesse, senão te mostrar que Cristo trata o pecador com compaixão, ao invés de indignação, que o Filho do homem não veio para destruir as vidas dos homens, mas para salvá-los, que a sua visita ao nosso mundo foi mediadora, não para condenar o mundo, mas para dar a sua vida em resgate de muitos, certamente, então, tu verias razão suficiente por que o pecador deve olhar para ele como um amigo de verdade.


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