O Conhecimento de Deus – Parte 1

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Uma vez que o conhecimento de Deus e das coisas divinas é uma parte e ramo da verdadeira piedade, ou da religião experimental, pois sem isto não pode haver boa disposição na mente para com Deus, pois não existem afetos nem desejos por um objeto desconhecido. Não pode haver verdadeira adoração de Deus, onde não há conhecimento de Deus, como mostrado nos casos dos samaritanos entre os judeus, os atenienses entre os gentios, e os seus filósofos sábios; não pode haver obediência cordial a ele por aqueles que são ignorantes sobre ele – a linguagem dessas pessoas vai ser como a de Faraó (Êxodo 5.2).

É uma falsa máxima religiosa afirmar que “a ignorância é a mãe da devoção;” isto está tão longe de ser verdade, que é o pai da irreligião, da vã adoração, superstição e idolatria.
A piedade é um conjunto das graças do Espírito de Deus nos corações do seu povo, no exercício da qual a religião experimental ou culto interno se encontra, agora, não pode haver graça sem conhecimento, nem fé, sem isto, o objeto deve ser conhecido, ou não pode ser acreditado justamente como se vê na resposta sábia do homem cego à pergunta de Cristo (João 9.35,36).

Dos gentios, que são descritos como aqueles que “não conhecem a Deus”, também é dito que estão “sem esperança”, sem esperança e sem Deus no mundo: sem esperança em Deus e de coisas boas dele no presente, e sem esperança da ressurreição dos mortos – num estado futuro, de desfrute da felicidade nisto (I Tes 4.5,13).
Um objeto desconhecido não pode ser objeto de amor, uma pessoa invisível pode: “Quem não tendo visto, nós amamos”, mas uma pessoa desconhecida não pode ser verdadeira e cordialmente amada; Deus deve ser conhecido, ou ele não pode ser amado com todo o coração e com toda a alma.

O homem sábio diz “que não é bom proceder sem refletir”, Prov 19.2; ou melhor, isto pode ser assim entendido, “sem o conhecimento a alma não está disposta àquilo que é bom”, não pode estar bem disposta para com Deus, nem ser apta para toda boa obra, ou para o desempenho correto de qualquer exercício religioso, mas está disposta ao que é mau; pois onde a ignorância reina nenhuma coisa boa habita. Agora,

1. Em primeiro lugar, observemos que, enquanto os homens estão em um estado natural, não regenerado, e não renovado, pelo Espírito Santo, eles são desprovidos de conhecimento divino – o tempo antes da conversão é um tempo de ignorância, o que não foi apenas o caso do mundo gentio em geral, antes que o evangelho chegasse até eles, mas de cada pessoa em particular, judeus ou gentios (Atos 17.30; I Pedro 1.14), todos os filhos e filhas de Adão estão nas mesmas circunstâncias, porque a ilustração disto pode ser notada,

1a. Em primeiro lugar, que Adão foi criado uma criatura com conhecimento, sendo feito à imagem e à semelhança de Deus, que tinha muita compreensão e conhecimento das coisas, e enquanto ele continuava em estado de inocência seu conhecimento era muito grande, mas não é fácil dizer quão grande era, quanto ele sabia das coisas naturais, assim como das coisas morais e divinas – como ele sabia muito das criaturas e sua natureza, de modo a dar nomes adequados para elas, ele sabia muito de Deus, de sua natureza, perfeições, e de sua mente e vontade, e de todas as verdades e os deveres da religião necessários, pois podemos inferir à luz da sua natureza e obras, e pelo exercício de seus próprios poderes racionais, que estavam em sua plena força e vigor, e que por proximidade de Deus e da comunhão que ele tinha com ele, e por aquelas revelações que foram feitas a ele por Deus, seu conhecimento deve ter sido muito grande.

Mas,
1b. Em segundo lugar, nossos primeiros pais não estavam contentes com o conhecimento que eles tinham, mas ouvindo a tentação de Satanás, que lhes sugeriu que, se comessem do fruto proibido se tornariam sábios e conhecedores como Deus, eles pecaram com isto, e por isto, e assim perderam em grande medida aquele conhecimento que tinham, porque “o homem que está em honra”, como ele estava, enquanto no estado de inocência, e “nada entendia”, então ele se tornou por pecar, como os animais que perecem, não somente como eles, tendo se tornado através do pecado mortal, como eles são, mas por causa da falta de entendimento, ainda vãmente o homem seria sábio, pensaria ser sábio e uma criatura com muito conhecimento, “Todavia, o homem não permanece em sua ostentação; é, antes, como os animais, que perecem.”, Sl 49.12.

1c. Em terceiro lugar, Adão sendo afastado da presença de Deus, e privado da comunhão com ele por causa do pecado, pelo qual a sua natureza foi corrompida, a escuridão tomou o seu entendimento e o espalhou, e muito dissipou aquela luz que antes brilhava tão intensamente nele, e este é o caso de toda a sua posteridade (Ef 4.18). A escuridão do pecado cegou os olhos de seu entendimento, que não podiam ver e entender as coisas divinas; isto trouxe uma ignorância de Deus neles, pela qual veio a sua falta de disposição para com Deus, uma alienação dele, e um aversão a uma vida agradável para ele, e este é o estado e caso de todos os homens, mesmo dos eleitos de Deus antes da conversão, que não estavam apenas nas trevas, mas eram “escuridão em si mesmos”, até que eles são feitos luz no Senhor, e quando a verdadeira luz da graça brilha, e expulsa a escuridão para longe (Ef 5.8; I João 2.8).

1d. Em quarto lugar, esta escuridão e ignorância são aumentadas num curso pecaminoso. Naturalmente o homem “está nas trevas”, ele nasce na escuridão e continua na mesma, “e anda nas trevas”, e por um hábito e costume no pecado aumenta a escuridão de sua mente, pois apesar da queda há alguns restos de luz na natureza no homem, algumas noções gerais de bem e mal, de acordo com as quais a consciência natural acusa ou justifica, mas, por vezes, através de um curso de pecado a consciência é cauterizada, cauterizada como com um ferro em brasa, para que ela se torne insensível à distinção do bem e do mal (Is 5.20).

1e. Em quinto lugar, há em muitos uma ignorância afetada, o que é muito criminoso, pois eles são “voluntariamente ignorantes”, como diz o apóstolo em relação aos escarnecedores que se levantarão na última hora, ou melhor, eles não estão dispostos a entender o que eles podem, eles não conhecem, nem vão entender, eles andam em trevas, pois não optam fazer uso, senão evitar os meios de conhecimento, e fecham os olhos contra toda a luz e convicção, pois não se importam em vir para a luz, e amam mais as trevas do que a luz, pois não desejam conhecer a Deus e seus caminhos, mas sim que ele se retirasse deles; para estes a sabedoria, diz: “Até quando, ó néscios, amareis a necedade? E vós, escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós, loucos, aborrecereis o conhecimento?” (Prov 1.22; 2 Pe 3.5; Sl 82.5; João 3.19; Jó 21.14).

1f. Em sexto lugar, alguns, por causa das paixões pecaminosas às quais se entregam, e seu desprezo dos meios de luz e conhecimento, e a escolha teimosa que fazem do erro e da falsidade, são abandonados à cegueira judicial e dureza de coração, como muitos entre os pagãos, que por não gostarem de manter Deus em seu conhecimento, foram entregues a uma disposição mental reprovável, ou a um vazio de mente de julgamento, e por isso absorveram noções e executaram ações inconvenientes (Rom 1.28), e os judeus, que rejeitaram Jesus, o Messias, contra toda a luz e provas, ficaram sujeitos a um espírito de sono, com olhos para não verem, e ouvidos para não ouvirem, nem entenderem com o coração (João 12.40; Rom 11.8); e os seguidores do Anticristo, que não receberam o amor da verdade, por uma forte ilusão foram enviados a crer numa mentira (2 Tes 2.10,11). Outros têm sido deixados sob o poder de Satanás, que é o deus deste mundo, e têm tido os olhos cegados por não crerem, a menos que a luz do evangelho da glória de Cristo brilhe para eles (2 Cor 4.4).

Texto de John Gill, em domínio público, traduzido e adaptado pelo Pr Silvio Dutra.


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