“Consolai, Consolai o Meu Povo, Diz o Vosso Deus.” (Is 40.1)

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O profeta Isaías introduz um novo tema; porque, deixando as pessoas sobre as quais nenhuma impressão favorável foi feita por ameaças ou por admoestações, por causa de sua grande impiedade, ele se vira para a posteridade, para declarar que as pessoas que serão humilhadas sob a cruz não sentirão qualquer falta de consolação, mesmo em meio às tribulações mais severas. E é provável que ele escreveu esta profecia quando o tempo do cativeiro estava às portas, para que não deixasse a Igreja de Deus ser abalada por calamidades muito graves, sem a esperança de restauração. Embora ele tivesse misturado no passado suas predições com ameaças e terrores para este propósito, no entanto, ele parece ter contemplado principalmente o benefício daqueles que viveram naquela época. O que se segue se relaciona com a Igreja futura, o renascimento que seria feito muito tempo depois de sua morte; pois ele irá estabelecer uma doutrina perpétua, que não deve ser limitada a um único período, e especialmente quando ele trata do início e do progresso do reino de Cristo. E essa profecia deve ser de muito maior importância para nós, porque se dirige a nós em termos diretos; porque, embora possa ser uma aplicação espiritual do que se passa antes, de modo que é doutrina comum tanto para os judeus quanto para nós, no entanto, como ele deixa os judeus daquela época, e aborda a posteridade até o fim do mundo, parece pertencer mais especialmente a nós.

Por esta exortação, portanto, o Senhor pretendia mover os corações dos santos, para que não se fatiguem, em meio a calamidades pesadas. Em primeiro lugar, ele se dirige aos judeus, que iriam brevemente para o duro cativeiro no qual não teriam nem profetas, nem apresentação de sacrifícios, e seriam destituídos de toda consolação, não tivesse o Senhor aliviado suas misérias por essas previsões. Em seguida, ele se dirige a todos os santos que viveriam depois, para encorajar o seu coração, mesmo quando parecesse que foram reduzidos a uma condição muito baixa e sido totalmente arruinados.

Para que esse discurso pudesse ter um maior peso, e afetar poderosamente suas mentes, ele representa Deus como levantando novos profetas, aos quais ele ordena aliviar os sofrimentos das pessoas por consolação amigável. O significado geral é que, quando parecesse que ele havia abandonado por um tempo os pobres cativos, o testemunho da sua graça novamente irromperia da escuridão, e que, quando profecias de alegria tivessem cessado, a sua consolação viria na hora certa. A fim de expor com mais força o fundamento de alegria, ele faz uso do plural, Consolai; pelo qual ele dá a entender que não enviará um outro, mas uma vasta multidão de profetas; e isso ele realmente tem realizado, pelo que vemos mais claramente sua infinita bondade e misericórdia.
Primeiro, deve ser observado que o verbo está no futuro do pretérito; e aqueles comentadores que o tomam no presente ou no passado tanto mudam a palavra como estragam o seu significado. Indiretamente ele aponta um período intermediário, durante o qual as pessoas estariam muito aflitas, como se Deus tivesse ficado em silêncio. Embora mesmo naquela época Deus não tivesse deixado de manter a esperança de salvação por meio de alguns profetas, contudo, tendo por um longo período os lançado fora, quando estariam miseravelmente angustiados e quase em ruínas, o consolo seria menos abundante, até que fosse apontado, por assim dizer, com o dedo, que estavam em liberdade para voltar.

Por conta disso a palavra consolo (conforto) deve ser vista como relativa a um presente favor; e a repetição da palavra não somente confirma a certeza da previsão, mas aplaude seu poder e sucesso, como se ele tivesse dito, que por esta mensagem haveria motivo abundante, cheio, de incessante alegria.
Acima de tudo, temos que manter o tempo futuro deste verbo, porque há um contraste implícito entre o silêncio melancólico do qual eu tenho falado, e a doutrina de consolação que depois se seguiu. E com esta previsão concorda a queixa da Igreja:
“Já não vemos os nossos símbolos; já não há profeta; nem, entre nós, quem saiba até quando.” (Salmo 74.9)

Vemos como ela lamenta que tenha sido privada do melhor tipo de conforto, porque nenhuma promessa é antecipada para acalmar suas angústias. É como se o Profeta tivesse dito: “O Senhor não lhes deixará serem privados dos profetas, para consolá-los em meio às suas angústias mais severas. Naquela época, ele suscitará homens por quem ele irá lhes enviar a mensagem que haviam desejado por muito tempo, e naquela época ele também vai mostrar que cuida de vocês.”

Eu considero o tempo futuro como relacionado não somente ao cativeiro na Babilônia, mas a todo o período de libertação, que inclui o reino de Cristo. Porque o verbo diz que devemos ser providos de “profetas”, os quais ele iria nomear para este propósito; porque eles teriam falado em vão, se o Senhor não lhes tivesse dito, e até mesmo colocado em suas bocas o que deveriam dar a conhecer aos outros. Assim, há uma relação recíproca entre Deus e os profetas, aos quais ele designará para aquele propósito.
Em uma palavra, o Senhor promete que a esperança da salvação será dada, embora a ingratidão dos homens mereça que essa voz fosse silenciada perpetuamente e completamente extinta.

Estas palavras, como tenho dito, não deveriam ser limitadas ao cativeiro na Babilônia; pois elas têm um significado muito extenso, e incluem a doutrina do evangelho, em que principalmente reside o poder de “consolar”. Ao evangelho pertence consolar os que estão angustiados e abatidos, vivificar os que estavam mortos e, animar os aflitos, e, em suma, trazer toda a alegria e júbilo; e esta é também a razão pela qual ele é chamado de “Evangelho”, isto é, uma boa notícia. Nem isto começou no momento em que Cristo apareceu no mundo, mas muito antes, desde o momento em que o favor de Deus foi claramente revelado, e de Daniel pode ser dito que foi o primeiro que levantou a bandeira, para que os crentes possam se manter em prontidão para retornar (Daniel 9.2). Depois, Ageu, Zacarias, Malaquias, Neemias, Esdras e outros, até a vinda de Cristo, exortaram os crentes a acalentar cada vez mais melhores esperanças. Malaquias, o último deles que escreveu, sabia que haveria profetas enviados às pessoas para a lei de Moisés, para aprenderem com ela a vontade de Deus e as suas ameaças e promessas (Malaquias 4.4).

Desta passagem, aprendemos que devemos principalmente procurar nos profetas, ou seja, para encorajar as esperanças da pessoas piedosas, por lhes mostrar a doçura da graça divina, para que não desmaiem sob o peso das aflições, mas possam perseverar corajosamente em seguir a Deus. Mas como isto era difícil de ser acreditado, ele lembra da aliança; como se ele tivesse dito que era impossível para Deus esquecer o que ele outrora havia prometido a Abraão (Gênesis 17.7).

Embora, portanto, os judeus por seus pecados houvessem caído em desgraça, ele afirma que ele é o seu Deus, e que eles são o seu próprio povo, o qual havia sido eleito; mas, como ainda naquela nação havia muitos réprobos, a declaração implica que é somente para os crentes que a promessa está estritamente direcionada; porque é para os crentes que assegurou um conforto inestimável, que, embora por um tempo, eles sejam oprimidos pela dor e luto, mas porque esperam em Deus, que é o Pai de consolação, saberão por experiência que as promessas de graça, como um tesouro escondido, estão reservadas para eles, para alegrar seus corações no momento adequado. Esta é também uma muito alta recomendação do ofício profético, que sustenta os crentes na adversidade, para que não desmaiem ou desanimem; e, por outro lado, esta passagem mostra que é uma exposição muito terrível da vingança de Deus quando não há mestres fiéis, de cuja boca possa ser ouvido na Igreja de Deus o consolo que é adequado para elevar aqueles que são lançados para baixo, e para fortalecer os fracos.

Texto de João Calvino, traduzido e adaptado por Silvio Dutra.


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