Falai ao Coração de Jerusalém… (Is 40:2)

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“Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniquidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do SENHOR por todos os seus pecados.” (Isaías 40.2)

“Falai ao coração de Jerusalém”. Aqui Deus envia seus servos, os profetas, e estabelece a mensagem que ele deseja que entreguem publicamente, quando os crentes serão chamados a mudarem o seu pranto de luto em alegria. E assim ele não somente lhes exorta e encoraja ao cumprimento alegre e corajoso de seu cargo, como também transmite às mentes dos crentes uma segura esperança para que eles possam suportar pacientemente a tediosa espera, até que os profetas apareçam com esta feliz e agradável mensagem. Falar ao coração nada mais é do que “falar de acordo com o desejo ou sentimento da mente”, pois o nosso coração se aborrece ou recua, se alguma notícia triste é comunicada, mas de boa vontade recebe, ou melhor, corre ao encontro, de tudo o que é agradável.

Agora, em consequência do povo ter sido aparentemente rejeitado, nada poderia ser mais agradável do que uma reconciliação que pudesse apagar todas as ofensas. Por uma figura de linguagem em que uma parte é tomada pelo todo, Jerusalém, como é bem sabido, representa a Igreja.
“Bradai-lhe”. A palavra clamar significa que a promessa desta graça será aberta e manifesta, de modo a ressoar nos ouvidos de todos e ser compreendida; porque se os profetas apenas murmurassem ou falassem indistintamente, a crença nesta consolação seria duvidosa ou fraca, mas agora que eles a publicam com coragem e com a boca aberta, todas as dúvidas são removidas.
“Que já é findo o tempo da sua milícia”.

Esta é a mensagem desejável, que o Senhor determina para pôr fim à guerra de seu povo. Considero כי (que) para ser utilizado para introduzir uma explicação. Alguns pensam que צבאה (tzebaahh), que traduzimos “sua guerra”, simplesmente significa “tempo”, como se tivesse sido dito, “o seu tempo é cumprido”. Outros pensam que expressa o tempo de visitação, mas isso é incorreto; porque entre os hebreus isto denota literalmente um tempo previamente indicado e designado para o trabalho legal ou labor (Números 4.23). Mas aqui, sem dúvida, a metáfora é tomada a partir do desempenho de soldados; pois significa que o fim da questão relacionada aos seus tormentos está próximo, e que Deus não deseja perseguir seu povo continuamente, mas estabelecer um limite para as suas aflições. Ele, portanto, compara o tempo do cativeiro na Babilônia a uma guerra justa, ao final da qual os soldados, tendo obtido uma dispensa honrosa, voltarão para casa para desfrutar de paz e tranquilidade.
“Que a sua iniquidade está perdoada”.


Isto significa que Deus é tão gracioso para com eles que não está disposto a tratá-los com maior severidade. Estas palavras, portanto, assinalam uma razão; pois, como médicos, na cura de doenças, em primeiro lugar, eliminam as causas das doenças que surgem, de igual modo o Senhor trata conosco. Os flagelos pelos quais ele nos castiga procedem dos nossos pecados; e, portanto, eles podem cessar de serem aplicados, ele deve primeiro nos perdoar; e, consequentemente, ele diz que haverá um fim de punições, porque ele já não imputará o pecado por maior tempo. Outros pensam que עונה (gnavonahh) significa “a sua miséria”, e que denota que seu sofrimento acabou. Este significado também é muito apropriado, e assim o Profeta fará o mesmo anúncio de duas maneiras; porque terminar a sua guerra, e pôr fim às suas misérias, significa a mesma coisa. No entanto, devemos manter este princípio, que Deus deixa de infligir punição quando ele é aplacado, assim que o perdão e a remissão dos pecados sempre vêm em primeiro lugar na ordem.

Mas a palavra נרצה (nirtzah) exige, na minha opinião, o antigo significado; como se ele tivesse dito, que Deus foi apaziguado, de tal maneira que, tendo perdoado e esquecido os seus pecados, ele está pronto para entrar novamente em um estado de graça com o seu povo.
“E que já recebeu em dobro das mãos do SENHOR por todos os seus pecados”. Esta passagem é explicada de duas maneiras. Alguns dizem que o povo, depois de ter merecido um castigo duplo, obteve um favor duplo; e outros, que eles receberam punição suficiente, porque Deus não está disposto a exigir mais.

A primeira interpretação, embora contenha uma excelente e adequada doutrina, não concorda com o texto, e deve, portanto, ser rejeitada; e é evidente que o Profeta quer dizer nada mais do que Deus está abundantemente satisfeito com as misérias que se abateram sobre a sua Igreja. Eu poderia ter desejado, portanto, que aqueles que atacaram Jerônimo e outros defensores dessa interpretação, tivessem sido mais moderados; porque o significado natural pertence a esta interpretação, e não para a mais engenhosa, que o Senhor retribui favor duplo por seus pecados. O significado geral é que Deus não está disposto a infligir punição mais severa ou mais alongada sobre o seu povo, porque, através de sua bondade paternal, ele está em algum senso desagradado com a severidade.

Aqui, a palavra “dobro” denota “grandes e abundantes”. Não deve ser imaginado que as punições foram maiores do que as ofensas, ou iguais a elas; porque devemos abominar a blasfêmia daqueles que acusam Deus de crueldade, como se ele infligisse nos homens punição excessivamente severa; por que qual punição poderia ser infligida que fosse suficientemente severa, mesmo para a menor ofensa? Isto deve, portanto, referir-se à misericórdia de Deus, que, ao estabelecer um limite para os castigos, atesta que ele não está disposto a puni-los mais ou por mais tempo, como se ele ficasse abundantemente satisfeito com o que já tinha feito antes, embora aquela nação merecesse muitos castigos severos. Deus sustenta o caráter de um pai que, enquanto ele se compadece de seus filhos, é conduzido, não sem relutância, a exercer severidade, e, portanto, de bom grado inclina sua mente para conceder o perdão.

Texto de João Calvino, traduzido e adaptado por Silvio Dutra.

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