Um comentário polêmico sobre os nefilins

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Um comentário polêmico sobre Nefilins.

Uma das questões mais controversas do Antigo Testamento diz respeito à passagem que antecede o dilúvio, a qual faz referências aos que seriam “Os filhos de Deus” e “As filhas dos homens”. E introduz na Escritura o termo que incita um questionamento ainda maior: Os Nefilins. Essas duas situações, hora analisadas em conjunto, ora separadas, constituem um quebra-cabeças teológico considerável, que suscita debates desde então.

Tudo começa em Gênesis 1:2.
“Vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhe agradaram”. (ARA, os textos ARC e AEC são similares).

A questão parte do termo “filhos de Deus”. Na maioria dos casos, os teólogos aceitam a tese de que estes eram a geração de Sem. Em contraponto, as ‘filhas dos homens’, eram parte da geração amaldiçoada de Cão. É uma resposta que agradaria gregos e troianos se eles já existissem naquela época.

Entretanto, sem que ponto algum seja defendido, um ilhar investigativo exige que se observe um pouco mais nas entrelinhas.

A noção de paternidade.

O máximo que vamos encontrar no Antigo Testamento em relação à paternidade de Deus junto ao homem são referências e metáforas, como no Salmo 103:13. Não vemos nenhum dos profetas se referindo a Deus como Pai.
Essa idéia de paternidade, por assim dizer, só nos é revelada no Novo Testamento, quando recebemos o Espírito de Adoção (Romanos 8:15). Até então, o Senhor trata a todo um povo como seu filho, no caso, Israel (Êxodo 4:22). E isso depois, muito depois do dilúvio.

Parece forçoso querer contrapor uma geração a outra. Uma santa a uma degenerada, visto que, nenhuma nem outra escaparam ao dilúvio. Por que os ‘filhos de Deus’ seriam punidos por causa dos pecados de suas filhas? Seria algo como a teologia da ‘maldição hereditária’ às avessas.

O nome ‘filhos de Deus’ revela mais um pouco sobre o assunto. Jó 1:6 trás novamente o termo. Ora, Jó foi escrito em um período muito mais próximo do Gênesis do que do Êxodo em diante. Há quem defenda ser ele o mais antigo livro das Escrituras, mas, ainda que não o seja, sua narrativa é clássica do período dos patriarcas, o que não exclui Noé.

Quando em Jó, aparece o termo ‘filhos de Deus’, na versão original o termo é esse mesmo “benêy” = ‘filhos’ em hebraico. Exatamente a mesma palavra encontrada em Gênesis 6:2, o que desfaz o mito das ‘gerações antagônicas’. Não há nenhuma lógica em afirmar que os ‘filhos de Deus’ em Jó são os descendentes de Sem, e por isso são denominados assim.

Posto isso, vem a questão “Tomaram para si mulheres”.

Dentre as questões mais polêmicas das Escrituras essa é das mais evitadas, por causa de seu alto teor de volatilidade: a possibilidade da materialização de seres espirituais, no caso, os anjos. Volátil e extremamente sutil.

O que diz a Bíblia.

Uma passagem é reveladora. Está no capítulo 18 de Gênesis. Ali, três homens surgem diante do profeta Abraão. Mais tarde saberemos que se tratava de Deus e dois anjos, que, posteriormente seguem para livrar Ló do castigo que viria sobre Sodoma. Efusivo para receber bem os visitantes, Abraão pede a Sara que prepare uma refeição, a qual coloca diante deles. O versículo 8 é bem claro: Eles comeram. De alguma forma sobrenatural se alimentaram. Um mistério de Deus.

No capítulo seguinte – o 19 – já em Sodoma, os anjos vêem a necessidade de apressar a saída Ló e sua família da cidade, o versículo 16 diz “Ele, porém, demorava-se, e aqueles homens lhe pegaram pela mão, e pela mão de sua mulher e de suas duas filhas, sendo-lhe o SENHOR misericordioso, e tiraram-no, e puseram-no fora da cidade.”. (ACF).

E, finalmente, o que – quem – impedia Jacó de prosseguir sua viagem no Vau do Jaboque?

Negar que houve um evento físico, por mais absurdo que possa parecer, nessas situações, seria fechar os olhos a claras evidências bíblicas. Como isso aconteceu? Volta-se a repetir: um mistério de Deus.

Dentro desse prisma, torna-se ou não possível aceitar um relacionamento entre anjos e humanos?

A resposta nunca sai com desenvoltura, não é mesmo?

Questionado sobre se os anjos sentiriam prazer em uma relação, respondi perguntando (como bom descendente de judeus): E o pão que comeram diante de Abraão, foi para matar sua fome? Foi cansativa a viagem do céu até aqui? O argumento não se sustenta.

“Naquele tempo havia gigantes na terra…”.

A palavra é “Nefilin”. E ela não quer dizer ‘gigantes’, não em hebraico. Na língua em que o Antigo Testamento foi escrito, temos o verbo ‘naphal’, que é radical do nome encontrado em Gênesis 6:4. Ele quer dizer “cair”. Observando a conjugação correta, encontramos termos bastante correlatos ao do texto, sendo que o que se encaixa lá é ‘caídos’.

Foi a Septuaginta que o traduziu para ‘gigantes’. Os motivos? Só Deus sabe. Curiosamente, em Jó, não encontramos, nesta mesma versão, não ‘filhos de Deus’, mas ‘anjos de Deus’. Revelador.

Os teólogos mais moderados fogem dessa questão gramatical como o diabo da cruz. Não querem ser acusados de pregar ou debater heresias. O texto, entretanto, é mais do que claro, seja ele em hebraico, aramaico ou grego.

“Os caídos” possuíram as ‘filhas dos homens’. Que abacaxi, não?
Nesse caso teríamos híbridos. E motivos suficientes para encerrar a discussão tamanha a aura de fábula que ela vem adquirindo. Algo como contar para alguém que um homem um dia dialogou com uma jumenta…
A essa altura, mesmo com as bases lançadas até aqui, sobrevém o temor de questionar: elas tiveram filhos com os anjos?

Por que não observamos algumas situações antes de nos escandalizarmos?

Os filhos que nasceram do relacionamento (fossem de quem fossem) eram filhos comuns?
Não. Há um relato específico para eles (Valentes, varões de renome. Ou, do original, hag gibborím, ou seja, ‘os poderosos’). Definitivamente não seriam comuns a ponto de se destacarem entre a multidão dessa forma. E não um ou outro, mas todos os filhos nascidos da citada relação.

Deus destruiria a terra por causa de simples casamentos ilícitos? Quantas vezes isso não aconteceu no Antigo Testamento? Certamente que algo ‘mais’ estava acontecendo àquela altura dos acontecimentos, que poupou somente oito entre milhares.
Defender tal tese pode trazer acusações de meras especulações. Mas os textos citados anteriormente não podem ser ignorados.

Os ‘filhos de Deus’ eram, conforme as situações (teológicas e gramaticais) de Jó, na verdade anjos. Naquele momento, os caídos. Satanás veio no meio deles. Quantas vezes ele se apresentou entre humanos? O diálogo mostra que não poderia ser na esfera terrestre a conversa, pela resposta que o tentador dá ao Criador: “Venho de rodear a terra…”

Mas sempre persistirá a questão: é possível tal relacionamento? Os anjos não são seres espirituais como a própria Bíblia afirma em Hebreus 1:14? Sem dúvida, mas comeram, pegaram alguém pela mão e arrastaram. Trouxeram comida para Jesus no deserto. Sim, ali, naquele momento, era Deus Filho, o Verbo encanardo, homem, com fome, como relata o texto bíblico. Após a tentação os anjos o serviram (Mateus 4:11). E como se serve a um homem que está com fome? Sim, com comida.

Há, sim um grande mistério aqui. Mas também uma enorme constatação. De alguma forma, em algum momento, esses seres espirituais, segundo essas incontestáveis passagens bíblicas, tornam-se materiais. Como isso acontece ou porque, repete-se: ninguém pode afirmar.

São questões que abrem uma variável assustadora – para muitos -, fascinante, para mentes investigativas.

Uma informação que se arregimenta quando se sabe que os judeus dos primeiros séculos criam no que aqui foi exposto. E que posteriormente foi, aos poucos, pelas sucessivas traduções romanas, jogado para debaixo dos tapetes dogmáticos do Vaticano.

Pr Neto Curvina
Em aprendizado.


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