Nem Toda Separação de Igrejas é Cisma (divisão) – Parte 3

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Tradução e adaptação de Citações do Tratado de John Owen sobre cisma feitas pelo Pr Silvio Dutra, com comentários e notas inseridos pelo tradutor.

“Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima.” (Hebreus 10.25)

A separação e o abandono da comunhão daquela igreja, ou daquelas igrejas, pela parte de homens que tinham se reunido para a adoração de Deus, é a culpa aqui colocada sobre alguns pelo apóstolo. Aos que assim se apartaram é declarado no verso 26: “Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados;”.

Tendo retirado os seus pescoços de debaixo do jugo de Cristo, verso 28, e “recuando para a perdição”, verso 39, isto é, eles partiram para o judaísmo. Eu muito me pergunto, se alguém pensaria em chamar essas pessoas de cismáticas, ou se nós assim as julgamos, ou assim falamos em relação a qualquer pessoa, que nestes dias, tenha abandonado nossas igrejas, e que voltaram para o mundo – tais partidas tornam os homens apóstatas e não cismáticos. Deste tipo são mencionados muitos nas Escrituras. Também não são nem um pouco contados como cismáticos, não porque o crime menor é engolido e afogado no maior, mas porque o seu pecado é totalmente de outra natureza.

De alguns, que abandonaram a comunhão da igreja, pelo menos por um tempo, por seu caminhar desordenado e irregular, temos também mencionado. O apóstolo chama, de “rebelde”, ou pessoas “desordenadas”, ou seja, que não seguem em obediência à ordem prescrita por Cristo para suas igrejas, como vemos em 2 Tes 3.6:
“Nós vos ordenamos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que ande desordenadamente e não segundo a tradição que de nós recebestes;”.
Dessas pessoas desordenadas temos muitas em nossos dias, em que vivemos, cujo comportamento não classificamos por cisma, mas vaidade, insensatez, desobediência aos preceitos de Cristo em geral.

Os homens também se separam das igrejas de Cristo por conta de sensualidade, quando livremente cedem aos seus desejos e vivem em todos os tipos de prazer carnal por todos os seus dias; Judas 19. “Estes são os que produzem divisões, homens sensuais, que não têm o Espírito.” Quem são estes? Aqueles que transformam a graça de Deus em lascívia e que negam o Senhor Deus e nosso Salvador Jesus Cristo.”, verso 4. “Que contaminam a sua carne, à maneira de Sodoma e Gomorra – versos 7 e 8. “Estes, porém, quanto a tudo o que não entendem, difamam; e, quanto a tudo o que compreendem por instinto natural, como brutos sem razão, até nessas coisas se corrompem.”, verso 10; estes são os que causam divisões, diz o apóstolo.

Agora, que os homens que praticam estas abominações e outras citadas por Judas em sua epístola, são cismáticos, não é difícil de se julgar.
Mas nenhum desses casos abrangem o caso indagado, de modo que eu digo, que quando uma pessoa se retira da comunhão externa e visível de qualquer igreja ou igrejas, seja ela verdadeira ou não, nas quais o culto, doutrina e disciplina, instituídos por Cristo estão corrompidos entre eles, corrupção com a qual tal pessoa não se atreve a se contaminar, ele não está em cisma, e nem a Escritura assim o define.
O que pode regularmente, por outro lado, ser deduzido das ordens dadas para nos afastarmos daqueles que têm apenas uma forma de piedade, 2 Tim 3.5; também daqueles que andam desordenadamente, 2 Tes 3.6; e ainda de não termos comunhão com homens de princípios corruptos, e vidas perversas, Apo 2.14; a sairmos de uma igreja apóstata, Apo 18.4, para que possamos adorar a Cristo de acordo com a sua mente e designação, que é a força desses mandamentos citados.

Só há cisma, quando a separação quebra o vínculo de união instituído por Cristo.
Agora esta união sendo instituída na igreja, de acordo com as várias acepções desta palavra, é distinta. Portanto, para uma descoberta da natureza disso que é particularmente falado, e também o seu contrário,
devo mostrar,
1. As várias considerações da igreja, onde, e com o que, a união deve ser preservada.
2. O que a união é, e no que consiste de acordo com a mente de Cristo que devemos guardar e observar junto com a igreja.

3. E como esta união é quebrada, e qual é o pecado através do qual isto é feito.
A Igreja de Cristo vive neste mundo de três maneiras.
1. Pelo corpo místico de Cristo, seus escolhidos, redimidos, justificados, santificados e de todo o mundo, comumente chamados de igreja católica militante.
2. Pela universalidade dos homens no mundo inteiro, chamados pela pregação da palavra, visivelmente professando e rendendo obediência ao evangelho; chamados por alguns de igreja católica visível.

3. Por uma igreja particular de algum lugar, onde o culto instituído por Deus em Cristo é celebrado de acordo com a Sua vontade.
Etimologicamente, a palavra igreja, é vertida do grego ekklesia, que significa uma sociedade de homens chamados para fora do mundo; Rom 8.28. A Igreja deve ser distinguida de acordo com a sua resposta e obediência a essa chamada de Deus.
No primeiro sentido, a palavra é usada em Mat 16.28. “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” Esta é a igreja dos eleitos, reconciliados, justificados, santificados, que são edificados em Cristo; e estes somente, e todos estes estão interessados na promessa feita à igreja, não há promessa feita à igreja como tal, em qualquer sentido, mas é particularmente feita nEle, a todo aquele que é verdadeira e propriamente uma parte e membro desta igreja, João 6.40; 10.28,29; 17.20,24.

Aqueles que vão aplicar isso à igreja em qualquer outro sentido, devem saber que cabe a eles cumprir a promessa feita a ela a cada um que for um verdadeiro membro da igreja. Neste senso devem cumprir Ef 5.25-27: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.”

Ele fala apenas daqueles a quem Cristo amou antecedentemente à sua morte por eles, da qual o seu amor por eles foi a causa, e quem são eles é declarado em João 10.15; 17.17. E para quem, por sua morte, ele operou os efeitos mencionados, lavando, limpando, e santificando, trazendo-os para a condição prometida em Apo 19.8; 21.2; Col 1.18.
Cristo é a cabeça do corpo da igreja, e não é cabeça apenas para governo, para dar-lhe regras e leis , mas como se fosse uma cabeça natural do corpo, que é influenciado por ela, com uma nova vida espiritual.

(Cristo, sendo a cabeça da Igreja, jamais transferiria a autoridade da sua cabeça, para Pedro, Paulo ou para qualquer outro que viesse depois deles, e nem mesmo à Igreja como um todo, porque é fato patente que a cabeça (cérebro) não pode transferir os seus comandos para qualquer outro membro do corpo. E sendo a Igreja o corpo de Cristo, ela deve permanecer para sempre nesta condição, até mesmo na eternidade. – nota do tradutor)

Agora eu passarei à ultima consideração de uma igreja, à acepção mais comum desse nome no Novo Testamento, isto é, de uma determinada igreja instituída. Uma igreja, neste sentido, eu considero ser uma sociedade de homens, chamados pela palavra à obediência da fé em Cristo, e à atuação conjunta do culto de Deus, nas mesmas ordenanças individuais, de acordo com a ordem prescrita de Cristo.

Esta descrição geral exibe sua natureza. Esta era como a da igreja em Jerusalém, que foi perseguida, Atos 8.1. Esta foi a igreja que Saulo assolava, verso 3, a igreja que foi atormentada por Herodes, Atos 12.1 . Assim era a igreja em Antioquia, que se “reunia em um só lugar “, Atos 12.14, onde havia diversos profetas, Atos 13.1. Como a de Jerusalém tinha os anciãos e os irmãos, Atos 15.22. Os apóstolos ou alguns dos seus enviados, estiveram lá presentes. Então, não necessitamos adicionar qualquer outra consideração à igreja da qual estamos falando.

Temos também a igreja de Cesareia, Atos 18.22; Éfeso, Atos 20.14,28; Corinto, 1 Coríntios 1.2; 6.4,11,12; 14.4,5; 2 Coríntios 1.1 e todas as demais que Paulo chama de as igrejas do Gentios, Rom 16.4, em contraste com as dos Judeus, e as chama indistintamente de as igrejas de Deus ou de Cristo, Rom 16.16; 1 Coríntios 7.17; 2 Coríntios 8.18,19,23; 2 Tessalonicenses 1.4, e em diversos outros lugares. Assim, lemos também de muitas igrejas em um país, como na Judeia, Atos 9.1; na Ásia, 1 Coríntios 16.19; na Macedônia, 2 Coríntios 8.1; na Galácia, Gál 1. 2; as sete igrejas da Ásia, Apo 1.11.
Suponho que nesta descrição de uma igreja particular eu tenho não somente o consentimento delas para fazê-lo quanto a todos os tipos de igrejas, como também o seu reconhecimento de que estes eram os únicos tipos de igrejas dos primeiros dias do Cristianismo.

O número de crentes, mesmo em grandes cidades era tão pequeno, que podiam se reunir num mesmo lugar, e estes eram chamados de a igreja da cidade, e o modelo era congregacional e não diocesano.
E é este o estado que uma determinada igreja particular instituída deve pleitear. No decorrer do tempo, com os crentes se multiplicando, aqueles que tinham sido de uma só congregação se reuniram em várias assembleias, por uma distribuição decidida entre eles, para celebrar as mesmas ordenanças, e não houve uma disputa dos anciãos da igreja de onde eram originários, com aqueles aos quais estavam ligados agora numa nova região.
De acordo com o curso do procedimento até agora apresentado, dizemos que a unidade da Igreja neste sentido, não foi rompida ou violada, conforme podemos ver depois de eu ter apresentado como premissa algumas poucas coisas para comprová-lo:

1. Um homem pode ser membro da Igreja Católica de Cristo, estar unido a ela pela habitação do seu Espírito, e participar da vida dele, que em razão de algum obstáculo Providencial, nunca se una a qualquer congregação particular, para a participar das ordenanças, por todos os seus dias.
2. De igual forma, ele pode ser membro da igreja considerada como professante visivelmente, vendo que ele possa fazer tudo que é requerido dele, sem qualquer conjunção a uma determinada igreja visível, mas ainda,
3. Eu entendo, que todo crente está obrigado, como sendo uma parte de seu dever, se unir a alguma daquelas Igrejas de Cristo, para que nela ele possa cumprir a doutrina, e ter comunhão no “partir do pão e nas orações”, de acordo com a ordem do evangelho, se ele tem a oportunidade para fazer isto. Pois,

1. Há alguns deveres que nos são impostos, e que não podem ser realizados, senão pela suposição desse dever anteriormente requerido, e ao qual estamos sujeitos, Mat 18.15-17.
2. Há algumas ordenanças de Cristo, designadas para o bem e o benefício daqueles que creem, das quais nunca podem ser feitos participantes se não estiverem unidos a alguma igreja, como por exemplo o exercício da disciplina, e a participação da Ceia do Senhor.
3. O cuidado que Jesus Cristo tem tomado para que todas as coisas sejam bem ordenadas nestas igrejas, dando a condição de cumprimento de qualquer dever de adoração apenas e puramente por sua instituição e operação soberana, mas somente neles e por eles, Apo 2.7.11,29; 3.6,7,12; 1 Coríntios 11.
4 . A reunião e fundação de tais igrejas pelos apóstolos, com o cuidado que tiveram em trazê-las à perfeição, Atos 14.23; Tito 1.5.
5. Instituição de Cristo de oficiais para elas, Ef 4.11; 1 Coríntios 11.28, chamando tal igreja de seu corpo, e atribuindo a cada um o seu dever em tais sociedades.
6. O julgamento e condenação deles pelo Espírito Santo, como pessoas desordenadas, que devem ser evitadas, porque não andam de acordo com as regras e ordem nomeadas nestas igrejas.

Que há um culto instituído por Deus para ser continuado sob o Novo Testamento até a segunda vinda de Cristo, acho que não precisa de muita prova.
Deus tem determinado o modo de ser cultuado, e não vai permitir que a vontade e prudência do homem seja a medida e regra de sua honra e glória.
Cristo tem prometido, que onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ele vai estar no meio deles, Mat 18.20. Agora é suposto, com alguma esperança de ter ele concedido, que a Escritura é o poder de Deus para a salvação, Rom 1.16, que haja uma eficácia e energia suficientes em si mesma, para a conversão das almas.
Apesar de todo o seu estado a igreja não cessará em qualquer lugar, e ainda a Escritura, pela providência de Deus, estará lá na mão de indivíduos preservados, ainda que sejam dois ou três, convertidos e regenerados.

Eu pergunto se essas pessoas convertidas não podem possivelmente se reunir em nome de Jesus?
Zac 3.10: “Naquele dia, diz o SENHOR dos Exércitos, cada um de vós convidará ao seu próximo para debaixo da vide e para debaixo da figueira.” Esta promessa está atrelada ao dia da manifestação do evangelho no mundo. Não seria de se supor que haveria tanto espaço para muitos se reunirem debaixo da figueira. Não é certo?
Em circunstâncias extremas, excepcionais onde não seja possível preservar a Igreja senão por se reunir em tão pequeno grupo, está aqui declarado por Cristo, que ainda assim terá a sua igreja na forma referida.
Algumas coisas existem, sobre o que tem sido falado, que eu suponho, em tese, como concedidas, até que eu veja prova em contrário do que tenho falado.
Destas, a primeira é:

1. A partida ou divisão de qualquer pessoa ou grupo de pessoas, de qualquer igreja particular, não é chamada de cisma, nem é isto a natureza mesma da coisa (como o significado geral da palavra é insinuado pelo seu uso na Escritura), mas é algo para ser julgado, e receber uma definição de acordo com as suas causas e circunstâncias.
2. Uma igreja se recusa a realizar a comunhão com outra que exista entre elas, não é cisma, como propriamente chamado.
3. A partida de qualquer homem ou homens da sociedade ou comunhão de uma igreja qualquer, quando isto é feito com contenda, e julgamento e condenação de outros , porque de acordo com a luz de suas consciências eles não podem comungar em todas as coisas como eles adoram a Deus, de acordo com a sua mente, não pode ser considerado mal, mas devem ser avaliadas as circunstâncias e as pessoas que o fizeram.

A estes eu acrescento que, se qualquer um pode mostrar e evidenciar que já havia partido e deixado a comunhão, de qualquer igreja particular de Cristo, com a qual devemos caminhar em conformidade com a ordem acima mencionada, ou que tenha perturbado e quebrado a ordem e a união instituída por Cristo, na qual estamos incluídos, colocamo-nos à mercê de nossos juízes.

1. Nenhum homem pode ser membro de uma igreja nacional neste senso, mas em virtude de ele ser membro de alguma Igreja particular do país, o que concorre para a formação da igreja nacional.
2. Nenhum homem pode se separar desta suposta e imaginada igreja nacional ou mundial, mas se afastar de alguma igreja em particular.
3. Para fazer com que os homens sejam membros de qualquer igreja particular é necessário o seu próprio consentimento. Todos os homens devem escolher livremente qual será o lugar da sua habitação.
4. É impossível que alguém seja considerado culpado de uma ofensa contra aquilo que não existe. Como por exemplo se separar da Igreja Nacional Presbiteriana.


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