Comentário de II Timóteo 4 – Parte 1

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Este capítulo é o fechamento da epístola.
Nele é como se Paulo estivesse dizendo: “Bem, em face tudo o que eu te falei até aqui Timóteo, nesta minha carta, então você deve…”; e ele fez isto debaixo de uma exortação solene a que se comprometesse a fazer tudo o que lhe seria ordenado agora, em razão de todos os argumentos e verdades que lhes haviam sido apresentados até este ponto.

A palavra para “conjuro” no original grego é diamartiromai, uma palavra composta pela preposição diá, que significa por meio de, mediante, através de, e martiromai, que significa testemunhar, testificar, exortar energicamente.

Cabe destacar que a palavra testemunha é traduzida do grego mártir, revelando qual é o caráter do testemunho cristão, isto é, até ao martírio, se necessário for.
O próprio Paulo estava à porta do martírio sob Nero e ele afirma que estava perto o dia da sua partida para o Senhor.
É até mesmo provável que ele soubesse o dia que havia sido marcado para a sua execução, e qual é o testemunho deste grande homem de Deus?

De completa firmeza e serenidade diante do martírio que ele estava convicto que sofreria, tanto que desta vez não pediu que ninguém orasse por ele para que fosse livrado da prisão ou da morte, tal como havia feito antes em suas epístolas de Ef, Fp, Col e Fm, que havia escrito na sua primeira prisão em Roma e da qual havia sido efetivamente posto em liberdade.

Mas agora ele se sujeita inteiramente à vontade de Deus, sabendo que havia terminado o seu ministério e que deveria morrer daquela maneira para que o nome do Senhor fosse glorificado no seu testemunho de firmeza na fé diante da morte.
Isto serviria para encorajar a muitos cristãos nas perseguições que eles sofreriam debaixo especialmente do Império Romano, por quase três séculos, depois sua da morte.

Homens de Deus de verdade não se intimidam diante das grandes aflições que eles sofrem.
Assim como Davi no passado, quando perseguido por todo Israel com Absalão, Paulo manteve tranquilidade de espírito o bastante, e firmou-se inteiramente no Senhor para continuar deliberando a realização das coisas que eram necessárias para o triunfo da causa da justiça, como nós vemos particularmente neste 4º capítulo, nas instruções que deu a Timóteo em relação aos interesses de Cristo e da Sua Igreja, ainda que debaixo daquela grande aflição, enquanto aguardava na prisão a execução da sua sentença de morte.

Funções seculares neste mundo podem ser abandonadas e negligenciadas, mas ai do ministro que deixar de pregar fielmente o evangelho, por causa de sofrimentos ou por quaisquer motivos pessoais!
Eles sabem que terão que prestar contas a Deus no dia do Juízo de tudo que fizeram em cumprimento da chamada deles para serem ministros da Palavra.
Eles sabem que pesa sobre eles esta responsabilidade que foi colocada em seus ombros não por homem algum, mas pelo próprio Deus.

É por isso que não se permitirão descansar até o dia da sua morte, quando ao desencargo fiel da missão que receberam da parte do Senhor.
Paulo não estava ensinando a Timóteo algo que ele não soubesse ainda, mas lembrando qual era o seu dever para com o Senhor na condição de evangelista e ministro da Palavra.
Paulo conhecia o temor do Senhor e este era um dos grandes motivos de toda a sua fidelidade e perseverança.

Ele sabia que haverá um dia de prestação de contas no Tribunal de Cristo, e pretendia fazer isto com alegria e não gemendo.
São suas palavras em II Cor 5.10,11:
“Porque é necessário que todos nós sejamos manifestos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que fez por meio do corpo, segundo o que praticou, o bem ou o mal. Portanto, conhecendo o temor do Senhor, procuramos persuadir os homens;”.
Veja que ele diz que tinha o temor do Senhor quanto à prestação de contas no tribunal de Cristo.

Então os deveres dos quais estava encarregando Timóteo não eram deveres emanados dele próprio, Paulo, mas do Senhor, em relação ao ministério.
Paulo trouxe estes deveres à lembrança de Timóteo como prova do seu amor e cuidado por ele, de maneira que não viesse jamais a se desviar deles, e assim não ficar sujeito ao juízo de Deus.
O sucesso da Igreja é o sucesso de Cristo e o sucesso do ministro é também o sucesso de Cristo, e assim tanto um quanto outro estão satisfeitos.

Importa portanto, que haja plena diligência no cumprimento das coisas que nos são ordenadas por Deus, porque de outro modo Ele não pode estar contente conosco.
Importa portanto que os ministros do evangelho não se iludam com a aparência das coisas e que instruam as suas ovelhas a viverem de modo efetivamente obediente e consagrado à vontade de Deus.

Porque afinal, como poderá alguém se gloriar diante do Senhor, no dia do Juízo, em ter sido usado por Ele apesar de ter continuado a viver deliberadamente na prática do pecado?
Por acaso Jesus aceitaria esta insinuação de que é ministro do pecado e da iniquidade e que é indiferente ao fato de alguém ter decidido viver no pecado?
Por isso o trabalho de um ministro do evangelho não é uma coisa indiferente, mas absolutamente necessária.

Foi por causa disto que Paulo conjurou Timóteo a cumprir os seus deveres de ministro do evangelho, não diante de si próprio, mas diante de Deus e de Jesus Cristo, e sob o argumento da Sua segunda vinda como juiz de vivos e de mortos, para estabelecer o Seu reino:
“Conjuro-te diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua vinda e pelo seu reino;”.

Os olhos de Deus Pai e de Jesus Cristo estão continuamente sobre os Seus ministros, acompanhando os passos deles e atitudes; de maneira que darão contas a Deus de tudo o que fizeram neste mundo enquanto se encontravam ainda neste corpo mortal.
Tendo falado do peso da responsabilidade, Paulo apresentou em seguida a Timóteo, de maneira resumida, quais são os principais deveres do ministro do evangelho:
Primeiro: Pregar a Palavra, instando a tempo e fora de tempo.
Em segundo lugar: Admoestar.
Em terceiro: Repreender.
E em quarto: Exortar.

Sendo que tudo isto deve ser feito com toda longanimidade e doutrina.
Nós veremos agora, mais detalhadamente, cada um destes deveres.
Em primeiro lugar, o da pregação da Palavra.
Muito pode ser dito sobre a verdadeira pregação, mas não é nosso propósito esgotar o assunto neste breve comentário.
A pregação da Palavra é citada em primeiro lugar por Paulo porque é este o principal dever do ministro do evangelho.

Eles não devem pregar fábulas, invenções, filosofia, psicologia, sociologia, ou seja o que for que seja diferente da Palavra de Deus.
Por isto Paulo não disse simplesmente a Timóteo para pregar, mas para pregar a Palavra. Ele definiu assim o que deve ser pregado.
A ação de instar a tempo e fora de tempo tem a ver com a aplicação da pregação, porque o dever do ministro não é apenas o de pregar sermões mas aplicar a Palavra à vida dos seus ouvintes, e isto ele deve fazer instando com eles em toda ocasião oportuna.
Em segundo lugar há também o dever do pastor de admoestar as pessoas.

Admoestar é o mesmo que repreender, censurar, corrigir.
Os ministros do evangelho também estão encarregados deste dever por Deus em relação às ovelhas, porque todos os que são tornados filhos de Deus por meio da fé em Cristo, estão automaticamente debaixo da disciplina da aliança que Deus fez com eles através do sangue de Jesus Cristo.
No décimo oitavo capítulo do evangelho de Mateus Jesus detalhou o modo de aplicação desta disciplina corretiva.

Muito se fala da finalidade da disciplina que é a de conduzir os filhos de Deus ao arrependimento por suas faltas relativas a um viver deliberado no pecado, mas infelizmente isto tomou em nossos dias a conotação de tolerância para com os seus pecados, quando que, apesar de ser verdade que há esta finalidade de conduzir ao arrependimento, nosso Senhor deixou claramente afirmado que aquele que não se arrepender deve ser considerado como um gentio e publicano, isto é, como um estranho para a Igreja.

Este abrandamento da disciplina, ou até mesmo a falta da sua aplicação tem levado indiretamente muitos cristãos a viverem sem qualquer temor do Senhor em suas Igrejas, e também a não respeitarem e honrarem àqueles que foram levantados por Ele para apascentarem as suas vidas. A consequência é que o poder do Espírito fica ausente na congregação.

Mas Paulo disse a Timóteo que ele estava encarregado deste dever de corrigir os indisciplinados, e não somente ele, como todos os ministros do evangelho, porque têm recebido do Senhor, autoridade para reter e perdoar pecados na Igreja.
Não que o poder seja propriamente deles, mas têm recebido autoridade delegada para exercerem essa disciplina em nome de Cristo e segundo a Sua vontade e Palavra.
Assim, não é nenhuma agressão pessoal que um ministro da Palavra faz quando repreende cristãos de sua congregação por causa de faltas praticadas por eles.
Ao contrário ele está velando pelas suas almas e cumprindo o dever que lhe foi imposto por Cristo. Ele está exibindo verdadeiro amor e misericórdia para com os faltosos, de maneira a livrá-los de futuros juízos no tribunal de Cristo, quanto todos terão que prestar contas a Deus.

A palavra usada no original grego para admoestação é elégko e esta mesma palavra é usada em textos como Ef 5.11, 13; Tito 1.13; 2.15 e Hb 12.5, por exemplo, onde é traduzida por correção, reprovação e repreensão.
Em terceiro lugar, é dever do pastor repreender.
Isto pode parecer uma repetição do dever anterior de admoestar, mas a palavra usada por ele no original grego para repreender é outra palavra diferente de elégko.
Aqui ele usou a palavra epitimáu que encontramos em outros textos tais como Mt 8.26; 16.22; 17.18; Jd 1.9.

Esta palavra significa repreender, advertir, prevenir, e também admoestar, tanto quanto admoestar inclui também o significado de repreender.
A diferença básica entre estas duas ações consiste então no alvo de cada uma delas, porque a palavra grega elégko tem o alvo de reprimir, de corrigir, e epitimáu, o de prevenir.
Com a primeira ação nós combatemos e confrontamos diretamente o mal através da palavra de admoestação, e na segunda nós o prevenimos através da palavra de aconselhamento.

A palavra de repreensão preventiva, eptimáu, tem por alvo principalmente mostrar aos cristãos o quanto Deus fica desgostoso com as faltas deles, de maneira que sejam levados ao arrependimento.
Finalmente, o quarto dever do pastor apontado por Paulo é o de exortar.
A exortação tem em vista incentivar à perseverança na busca de santidade.
Assim devem ser também exortados os que estão firmes na fé, de maneira que busquem fazer um progresso cada vez maior em santificação, e para que nunca venham a se desanimar em seus esforços em diligência rumo à maturidade cristã e preservação da fidelidade deles a Deus.

Desde o início desta epístola, Paulo lembrou a Timóteo o dever dos ministros do evangelho de serem pacientes no sofrimento no exercício do seu ministério.
Então, não podem esquecer que devem pregar, instar, admoestar, repreender, e exortar com toda a longanimidade, isto é, não perdendo a paciência em ira contra as ovelhas, mesmo contra as indisciplinadas.
O conteúdo destas ações pastorais deve ser segundo a sã doutrina, e não por qualquer outro meio.

Em suma, este trabalho deve ser feito muito pacientemente, para que seja efetivo.
O motivo alegado por Paulo para ter encarregado Timóteo destes deveres, e não somente ele, mas a todos que ele deveria ordenar e ensinar a fazer as mesmas coisas que lhe estava ordenando tinha em vista principalmente manter a pregação da verdade no mundo porque ele sabia que o erro se manifestaria de uma tal forma na Igreja a partir de uma determinada época que muitos se desviariam de ouvir a sã doutrina e se voltariam às fábulas, isto é, a mitos, contos, estórias espetaculares, por preferirem dar ouvidos a coisas agradáveis segundo os seus desejos carnais, e assim escolheriam mestres para si na Igreja que lhes ministrassem segundo estes desejos carnais deles, rejeitando toda forma de admoestação, repreensão e exortação a uma vida santificada.

Em face deste perigo que se aproximava e que assolaria a Igreja em todas as partes do mundo, nada seria mais necessário do que esta firme posição em defesa da verdade, que deveria ser achada nos ministros do evangelho, em face das pressões que eles sofreriam das pessoas para afrouxarem na doutrina.


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