Auxílio e Hospitalidade

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“compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade;” (Romanos 12.13)

“Comunicando com as necessidades, etc”. Paulo retorna aos deveres de amor; dos quais o principal é fazer o bem àqueles de quem esperamos a menor recompensa. Como então geralmente acontece, que são especialmente desprezados aqueles que são mais do que outros, oprimidos com carências e que necessitam de ajuda (porque os benefícios que lhes são conferidos são considerados por muitos como perdidos) Deus os recomenda a nós de uma forma especial.

Na verdade, é somente então que provamos ser o nosso amor genuíno, quando aliviamos os irmãos necessitados, não por outro motivo, senão pelo de exercer a nossa benevolência. Agora, a hospitalidade não é um dos menores atos de amor; isto é, que a bondade e generosidade sejam mostradas em relação a estranhos, pois eles estão, na maior parte destituídos de todas as coisas, estão longe de seus amigos; ele recomenda, portanto, claramente isso para nós. Por isso, vemos que quanto mais alguém é negligenciado pelos homens, mais devemos estar atentos às suas necessidades.

Observe também a idoneidade da expressão, quando ele diz, que devemos comunicar com as necessidades dos santos; pela qual ele afirma que devemos aliviar as necessidades dos irmãos, como se estivéssemos aliviando a nós mesmos. E ele nos manda ajudar especialmente os santos porque apesar do dever de o nosso amor ser estendido a toda a raça humana, ainda deveria com sentimento peculiar abraçar a família da fé, aqueles que são, por um vínculo mais estreito, unidos a nós.

Abençoar quem Amaldiçoa

“abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis.” (Romanos 12.14)

“Abençoai, etc”. Eu gostaria, de uma vez por todas, lembrar ao leitor, que o apóstolo Paulo não está buscando escrupulosamente uma ordem precisa quanto aos preceitos aqui estabelecidos neste 12º capítulo de Romanos, senão que devemos nos contentar em ter preceitos curtos, desconexos, embora adequados para a formação de uma vida santa, tal como são deduzidos a partir do princípio que o apóstolo afirma no início do capítulo.
Ele daria presentemente uma direção relativa à retaliação das injúrias que podemos sofrer: mas aqui ele exige algo ainda mais difícil, – que não devemos imprecar males sobre os nossos inimigos, mas desejar e orar a Deus para tornar todas as coisas prósperas para eles, por mais que eles possam nos perseguir e cruelmente nos tratar; e esta bondade, por ser muito difícil de ser praticada, devemos, portanto, com o desejo mais intenso lutar por isto; porque o Senhor nada ordena, em relação ao que ele não exige a nossa obediência; nem há qualquer desculpa para ser autorizada, se estamos destituídos daquela disposição, pela qual o Senhor deseja que seu povo seja diferente dos ímpios e dos filhos deste mundo.

Árduo é isto, eu admito, e totalmente contra a natureza do homem; mas não há nada muito árduo para ser superado pelo poder de Deus, que nunca nos faltará, desde que não deixemos de procurar por isto. E mesmo que você possa dificilmente encontrar alguém que tenha feito tais avanços na lei do Senhor, que ele cumpra esse preceito, ainda assim ninguém pode afirmar que é filho de Deus ou se gloriar no nome de um cristão, que não tenha em parte atingido esta mente, e que não resista diariamente à disposição oposta.
Eu disse que isso é mais difícil do que deixar a vingança quando alguém é injuriado, porque embora alguns retenham suas mãos e não são conduzidos pela paixão de fazer o mal, eles ainda desejam que alguma calamidade ou perda acontecesse, de alguma forma, aos seus inimigos; e, mesmo quando eles são pacificados a ponto de não desejarem o mal, há ainda quase um em cada cem que deseja o bem àqueles dos quais recebeu injúrias; ou melhor, a maioria dos homens ousadamente explodem em imprecações. Mas Deus, por sua palavra, não somente restringe as mãos de fazer o mal, como também domina os sentimentos amargos interiores; e não somente isso, senão que faz com que sejamos solícito para o bem-estar daqueles que injustamente nos incomodam e buscam a nossa destruição.

Erasmo estava enganado quanto ao significado do verbo γεῖν – abençoar; porque ele não percebeu que ele se opõe a praguejar e amaldiçoar; porque Paulo tinha Deus em ambos os casos para ser uma testemunha da nossa paciência, e ver que não somente somos freados em nossas orações quanto à violência de nossa ira, como também mostrar compaixão por orar por perdão para aqueles que, dentre os nossos inimigos nos afligem; quando eles deliberadamente arruínam a si mesmos.

Simpatia Espiritual

“Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram.” (Romanos 12.15)

“Alegrai-vos com os que se alegram, etc”. A verdade geral é afirmada em terceiro lugar – que os fiéis, com afeição e estima mútuas, devem considerar a condição de outros, como sendo a sua própria. Paulo primeiro especifica duas coisas particulares, – “que eles deveriam se alegrar com os que se alegram, e chorar com os que choram.” Porque tal é a natureza do amor verdadeiro, que prefere chorar com seu irmão, ao invés de olhar com indiferença a sua dor, e viver em prazer ou facilidade. O que significa, então, é – que, tanto quanto possível, devemos simpatizar um com o outro, e que, qualquer que seja a nossa condição, cada um deve transferir para si o sentimento do outro, seja de dor na adversidade, ou de alegria na prosperidade. E, sem dúvida, não considerar com alegria a felicidade de um irmão é inveja; e não lamentar por seus infortúnios é desumanidade. Que haja uma tal simpatia entre nós, que possamos nos adaptar a todos os tipos de sentimentos.

Texto de João Calvino, traduzido e adaptado por Silvio Dutra.


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