Reparando o Mal que Causamos aos Outros

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Se por causa do nosso mau exemplo, ainda que seja involuntário, muitos podem ser prejudicados, e uma vez tendo sido conscientizados do mal que fizemos é nosso dever efetuar todo o esforço necessário para a devida reparação.
Deus será conosco se o fizermos, conforme podemos aprender do relato relativo à experiência do rei Josafá de Judá.

Nós lemos no 19º capítulo de II Crônicas sobre o reinado de Josafá, quanto ao seu retorno em paz para Jerusalém, e a repreensão dada a ele pelo Senhor por causa da sua aliança com o rei Acabe de Israel. Vemos também o grande cuidado que ele tomou logo a seguir para reformar o seu reino; as instruções que ele deu aos seus juízes, tanto os das cidades do interior que mantinham os tribunais inferiores, e aqueles em Jerusalém, que constituíam o tribunal supremo do reino.
Eis o grande favor que Deus mostrou a Josafá:

Ao trazê-lo de volta em segurança de sua expedição perigosa com Acabe, que poderia ter-lhe custado muito caro. Ele voltou para sua casa em paz (v. 1).
Ele havia estado em perigo iminente, e ainda voltou para casa em paz. Sempre que voltamos em paz para as nossas casas devemos reconhecer a providência de Deus em preservar a nossa saída e a nossa entrada, mas, se somos livrados mais do que de perigos comuns, somos obrigados a ser gratos de uma forma especial.
Havia talvez apenas um passo entre nós e a morte, e ainda estamos vivos. Josafá se saiu melhor do que merecia. Ele estava fora do caminho de seu dever, tinha saído em uma expedição na qual não poderia apresentar uma boa conta a Deus e à sua consciência, e ainda assim ele voltou em paz; pois Deus não é extremo em marcar o que fazemos de errado, nem em retirar sua proteção cada vez que a perdemos.

Josafá se saiu melhor do que Acabe, que foi trazido para casa morto. Embora Josafá tivesse dito a Acabe: Eu sou como tu és, Deus o distinguiu; pois ele conhece e governa o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.
Deus mostrou também seu favor para com Josafá ao lhe enviar uma repreensão por causa da sua afinidade com Acabe. É uma grande graça sermos feitos sensatos de nossas faltas, por nos ser dito a tempo onde erramos, para que possamos nos arrepender e corrigir o erro antes que seja tarde demais.
O profeta por quem a reprovação foi enviada é Jeú, filho de Hanani. Seu pai era um profeta eminente no último reinado, que foi colocado pelo rei Asa no tronco, e ainda assim o filho não tinha medo de reprovar outro rei.
Paulo não teria seu filho Timóteo desanimado, mas animado por seus sofrimentos, 2 Tim 3.11,14.

O profeta disse-lhe claramente que ele tinha feito muito mal em juntar-se com Acabe: “Devias tu ajudar ao perverso e amar aqueles que aborrecem o SENHOR? Por isso, caiu sobre ti a ira da parte do SENHOR.”
É o mau caráter das pessoas ímpias que as torna inimigas de Deus (Rom 1.30). Idólatras contumazes são reprovados no segundo mandamento; e, portanto, não é para aqueles que amam a Deus terem prazer neles ou terem intimidade com eles.
“Acaso não odeio os que te odeiam?”. Diz Davi no Sl 139.21. Aqueles aos quais a graça de Deus dignificou não devem se rebaixar na busca de comunhão com aqueles que vivem na prática da impiedade.
O povo de Deus deve ter a mente de Deus.

Por isso Deus estava descontente com o que fizera o piedoso rei Josafá: “Devias tu ajudar ao perverso e amar aqueles que aborrecem o SENHOR? Por isso, caiu sobre ti a ira da parte do SENHOR.”
Ele o fizera, e a ira de Deus foi desprezada. No entanto, o seu problema era uma repreensão a ele por se meter em conflitos que não lhe diziam respeito. Se ele é tão apaixonado pela guerra, ele deve tê-la o suficiente. E o grande mal que atingiu sua descendência depois dele que caiu junto com a casa de Acabe, foi o justo castigo de sua afinidade com aquela casa.
No entanto, ele tomou conhecimento daquilo que nele era louvável, pois isto é adequado para ser feito quando repreendemos alguém por seus erros (v. 3): “Boas coisas, contudo, se acharam em ti; porque tiraste os postes-ídolos da terra e dispuseste o coração para buscares a Deus.”

Ele havia abolido a idolatria com um coração disposto para Deus.
Josafá não somente recebeu bem a repreensão do profeta, como também se dispôs a tomar medidas para reparar todo o mal que a sua aliança com Acabe fizera ao povo de Judá.
Assim, ele fez uma visita piedosa proveitosa ao seu próprio reino: Ele saiu ao encontro do povo em pessoa, a partir de Berseba, no sul do Monte Efraim, no norte, e os trouxe de volta para o Senhor, Deus de seus pais, ou seja, fez tudo que podia para recuperá-los.
Isto porque o profeta disse que suas tentativas anteriores de reforma foram agradáveis a Deus e, portanto, ele as reavivou.

É bom quando palavras encorajadoras nos estimulam a fazer o nosso dever, e quanto mais somos elogiados por agir bem, mais vigorosamente nos dedicamos a praticá-lo.
Talvez ele descobriu que sua afinidade com a casa de Acabe, e com o idólatra reino de Israel tinha sido uma má influência sobre seu próprio reino.
Se realmente nos arrependemos do nosso pecado, nós faremos o nosso melhor para reparar os danos que tenhamos de alguma forma feito por ele à religião ou às almas de outros. Devemos estar particularmente preocupados em recuperar aqueles que caíram em pecado, ou que ficaram endurecidos no mesmo, em razão do nosso mau exemplo.
Josafá, depois de ter feito o que podia fazer para o bem do seu povo, se esforçou em criar meios para mantê-los no caminho da justiça, e por isso lhes enviou juízes para por as leis em execução, e para ser um temor para os malfeitores.

É provável que houvesse juízes no país antes, mas devem ter negligenciado os seus deveres, ou o povo lhes havia desprezado, de modo que o fim da instituição não foi alcançado; e, portanto, era necessário que fosse reestruturada, com novos homens, e um novo encargo dado a eles. Foi isso que Josafá fez.
Ele ergueu tribunais inferiores de justiça nas diversas cidades do reino (v. 5). Os juízes desses tribunais deveriam manter o povo na adoração devida a Deus, para punir as violações da lei, e decidir controvérsias entre homem e homem (v. 6).
Josafá construiu um supremo tribunal em Jerusalém, que deveria julgar todas as causas difíceis que ocorressem nos tribunais inferiores, e daria veredictos especiais.
Este tribunal deveria julgar segundo a lei de Deus que era a lei do reino.
Os juízes deste tribunal foram alguns dos levitas e sacerdotes que eram mais instruídos na lei, eminentes em sabedoria, e de integridade aprovada.

Os dois chefes ou presidentes, deste tribunal. Amarias, o sumo sacerdote, deveria presidir em causas eclesiásticas, para dirigir o tribunal e ser a sua boca.
E Zebadias, o primeiro-ministro daquele estado, deveria presidir em todas as causas civis (v. 11).
Assim, há diversidade de dons e operações, mas todos do mesmo Espírito, e para o bem do corpo. Alguns compreendem melhor os assuntos do Senhor, outros, os assuntos do rei.
Os oficiais inferiores do tribunal eram alguns dos levitas, porque não tiveram capacidade para serem qualificados como juízes, e deveriam apresentar as causas ao tribunal, e ver a sentença dos juízes executada.

Os que julgam a outros devem ter grande e constante cuidado para evitar o pecado, para terem autoridade em alertar o povo para não pecar contra o Senhor, e inspirá-los a temer o pecado, não somente como prejudicial para si e para a paz pública, mas como uma ofensa a Deus, e o que traria a ira de Deus sobre o povo, seria imputado aos magistrados se descumprissem o seu dever de puni-lo. Aqueles que têm o poder em suas mãos para reprimir a culpa do pecado, trazem culpa a si mesmos, caso não usem o seu poder para a prevenção e repressão do pecado nos outros.

Eles devem agir com resolução e coragem, não temendo a face do homem, sendo ousados no cumprimento do seu dever, e, serão protegidos por Deus caso alguém se levante contra eles.
O Senhor será com o bem.
Onde quer que seja encontrado um bom homem, um bom magistrado, também será encontrado um bom Deus.

Baseado no comentário de Matthew Henry e traduzido por Silvio Dutra.


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