O Princípio de Santidade na Nova Criatura

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O princípio de santidade na nova criatura é permanente, e permanece para sempre. Ele nunca deixará de inclinar e dispor toda a alma a atos e deveres de obediência a Deus, até que ele chegue à plenitude do desfrute de Deus. Isto é água viva, e aquele que beber da mesma, nunca mais terá sede, isto é, ainda que com uma necessidade total dos suprimentos de graça, é uma fonte de água que salta para a vida eterna – João 4.14.

Este princípio de santidade surge, e sem intervalo, permanece sempre, porque é água viva da qual os atos vitais são inseparáveis, de modo permanente, sem cessar, ele brota em vida eterna, e não falha, até que aqueles nos quais ele se encontra, estejam alojados em segurança no completo desfrute do mesmo. Este é expressamente prometido na aliança: “Vou colocar o meu temor no seu coração, e eles não se apartarão de mim.” (Jer 32.40). É verdade, que é o nosso dever, ter todo o cuidado e diligência, no uso de todos os meios, para preservar, valorizar e melhorar tanto o próprio princípio, e os seus desempenhos nestas disposições santas. Devemos mostrar até o fim toda a diligência até a plena certeza da esperança – Hebreus 6.11.

E é no uso de meios, e no exercício da graça, que isto é infalivelmente mantido e preservado –Isaías. 49.31. E também é verdade que, às vezes, em alguns homens, sobre a interposição de ferozes tentações, com a operação de desejos violentos e traiçoeiros, o princípio em si pode parecer parar por uma temporada até ser totalmente sufocado, e isto foi o que sucedeu com Davi em sua triste queda e decadência.

No entanto, tal é a natureza deste princípio de santidade, que é imortal, eterno, e que jamais morrerá absolutamente; tal é a relação dele com a aliança da graça, fidelidade de Deus, e mediação de Cristo, com o que ele nunca deve cessar totalmente ou ser extinto.
É este princípio vivo de santidade que inclina o coração a todos os deveres da santa obediência até à sepultura. Sim ordinariamente, e onde seu trabalho real e tendência não for interrompido por maldição ou negligência ou amor ao mundo, prospera e cresce continuamente até o fim. Por isso, alguns não são apenas frutíferos, mas vigorosos e florescentes em sua velhice, e assim como o homem exterior decai, todavia o homem interior se renova diariamente em força e poder.

Mas, como todos os outros princípios de obediência, quaisquer que sejam, como são em sua própria natureza sujeitos à decadência e a murchar, todas as suas atuações ficam insensíveis, mais fracas e menos eficazes, quando há aumento de sabedoria carnal, ou o amor do mundo, ou alguma poderosa tentação que uma vez ou outra coloca um fim absoluto neles; e eles não têm utilidade alguma.

Mas o princípio permanece vivo e pronto para atuar porque a nova natureza divina que está nos crentes, lhes dispõe e inclina de forma imparcial, uniforme, e permanentemente, a todos os atos e deveres de santa obediência.
Uma coisa que ainda deve ser esclarecida para que ninguém se engane sobre este assunto, é esta, que aqueles que são, portanto, constantemente inclinados e dispostos a todos os atos de uma vida espiritual celeste, existem ainda neles disposições e inclinações contrárias também.

Existe ainda neles inclinações e disposições para o pecado, provenientes das sobras de um princípio habitual contrário. Este é chamado pela Escritura de “carne”, “luxúria”, o pecado que habita em nós, o “corpo da morte”; sendo que ainda remanesce nos crentes aquela viciosa, corrompida, depravação de nossa natureza, que veio a nós pela perda da imagem de Deus, dispondo toda a alma a tudo o que é mau. Isto ainda permanece neles, inclinando-os para o mal, e tudo que é então, de acordo com a potência e eficácia que remanesce na velha natureza em vários graus. Diversas coisas são aqui observáveis; como:

(1) Isto que é singular nesta vida de Deus. Há na mesma mente, vontade e afeições, ou seja, de uma pessoa regenerada, hábitos contrários e inclinações, opondo-se continuamente um ao outro e atuando negativamente sobre os mesmos objetos e fins. E isto não procede de qualquer desarmonia ou desordem entre as faculdades distintas da própria alma, como nos homens naturais existem atos adversos entre as suas vontades e afeições, por um lado pelo pecado; e a luz das suas mentes e consciências, por outro lado, proibindo o cometimento do pecado, e condenando sua comissão, cuja desordem é discernível à luz da natureza, e é suficientemente debatida pelos antigos filósofos. Mas esses hábitos contrários, inclinações e atos, estão nas mesmas faculdades.

(2) Como isto não pode ser apreendido senão por virtude de uma convicção e reconhecimento anterior, tanto da total corrupção da nossa natureza pela Queda, quando da renovação inicial da mesma por Jesus Cristo, em que esses hábitos e disposições contrárias consistem, por isso não pode ser negado sem uma aberta rejeição do evangelho, e contradizendo a experiência de todos os que creem, ou conhecem alguma coisa sobre o que é viver para Deus. Nós nada mais intentamos senão aquilo que o apóstolo afirma tão claramente; Gál 5.17: “A carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne”, isto é , na mente, vontade e afeições dos crentes, e estes se opõem um ao outro; pois são princípios contrários atendidos por inclinações e atos contrários, de modo que os crentes não podem fazer o que querem.

(3) Não pode haver hábitos contrários, meramente naturais ou morais, do mesmo assunto, no que diz respeito ao mesmo objeto, ao mesmo tempo; pelo menos eles não podem sê-lo em qualquer grau elevado, de modo a inclinar e agir contrariamente um ao outro com urgência ou eficácia. Porque inclinações violentas para o pecado, e uma consciência feroz para condenar o pecado, pelas quais os pecadores são por vezes atingidos, não são hábitos contrários no mesmo objeto. Somente a consciência traz isso sem o concurso do juízo de Deus, contra o que a vontade e as afeições estão empenhadas.

O pecado e a graça não podem governar o mesmo coração, ao mesmo tempo. Também não podem ter a mesma alma em inclinações contrárias igualmente eficazes.
Mas, por natureza, o vicioso, depravado, hábito do pecado, ou a carne, é totalmente predominante e universalmente predominante, constantemente inclinando a alma ao pecado. Por isso “todos os desígnios dos corações dos homens são maus, e continuamente”, e “os que estão na carne não podem agradar a Deus”. Não habita nenhum bem neles, nem podem fazer qualquer coisa que é boa; ou seja a velha natureza e o pecado, pois sempre se inclinam para o que é mau.

Mas, com a introdução do novo princípio de graça e de santidade em nossa santificação, este hábito de pecado é enfraquecido, prejudicado, e assim incapacitado, de modo que não poderá inclinar para o pecado, com a constância e prevalência como fazia no passado, nem com a mesma urgência e violência. Por isso, se diz na Escritura que o pecado foi destronado pela graça, de modo que não reinará como um senhor sobre nós – Rom 6.12.
Mas esta carne, este princípio do pecado, contudo possa ser destronado, corrigido, prejudicado, e enfraquecido, ele nunca é total e absolutamente expulso da alma nesta vida. Lá ele permanecerá, e lá funcionará, seduzirá, e tentará, mais ou menos, de acordo como a sua força restante. Por causa disto, e da oposição que, portanto, se levanta contra ele, o princípio de graça e de santidade não pode, perfeita, nem absolutamente, inclinar o coração e alma para a vida de Deus, e os mesmos atos, de modo que aqueles, nos quais ele se encontra, deveriam ser sensíveis de não se oporem a esta vida de Deus, ou para não fazerem movimentos e inclinações para o pecado, que são contrários à mesma.

Pois, a carne luta contra o Espírito, bem como o Espírito contra a carne, e estes são contrários. Esta é a analogia entre estas dois estados. No estado de natureza, o princípio do pecado, ou carne, é predominante e governa na alma, mas há uma luz permanecendo na mente, e um julgamento na consciência, que estão sendo aumentados com instruções e convicções que continuamente se opõem à natureza, e condenam o pecado tanto antes quanto após a sua comissão. Nos que são regenerados é o princípio de graça e de santidade que é predominante e governa; mas não há ainda neles um princípio de cobiça e de pecado, que se rebela contra o governo da graça, em muito maior proporção que a luz e as convicções se rebelam contra o governo do pecado nos que não são regenerados (não nascidos do Espírito Santo).

Porque, assim como eles impedem os homens de cometerem muitos males, para os quais o princípio dominante do pecado fortemente lhes inclina, e os coloca em muitos deveres que não gostam; assim como estes, por outro lado, naqueles que são regenerados; comprometem-se em fazer muitas coisas boas para as quais o seu princípio dominante lhes inclina, e os leva a praticar muitos males que eles abominam.

Texto extraído do tratado de John Owen, intitulado A Obra Positiva do Espírito na Santificação dos Crentes, traduzido e adaptado pelo Pr Silvio Dutra.


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