O Interesse do Crente na Plenitude de Cristo

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“Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça.” (João 1.16)

Os escritores sagrados parecem nunca temerem que exaltassem muito a Cristo, ou lhe atribuíssem uma glória além de toda a medida. João, em particular, evidencia o desejo de magnificá-lo tanto quanto possível, e estabelece sua perfeita igualdade com o Pai em termos tão fortes e perspicazes quanto a linguagem pudesse expressar. No capítulo diante de nós ele declara que Cristo não era apenas coexistente com Deus perante o mundo, mas que ele próprio era Deus, o único Criador do universo, e nas palavras que acabamos de ler, ele o representa como a única fonte de todo o bem.

Jesus Cristo tem em si toda a plenitude da divindade. Mas esta não pode ser a plenitude à qual o apóstolo se refere, porque a divindade é absolutamente incomunicável à criatura. Há outra plenitude, a qual, de acordo com o desígnio do Pai, habita nele como nosso Mediador, ou seja, a plenitude de todas as coisas que o seu povo redimido possa ter necessidade.

Estamos imersos na escuridão, e sentados na sombra da morte? Ele é “a luz do mundo, e quem o segue não permanece nas trevas, mas terá a luz da vida.”, João 8.12. Somos indizivelmente culpados, e incapazes de trabalhar uma justiça para nós mesmos? Ele é “o Senhor nossa Justiça”, Jer 23.6; e “o fim da lei para justiça de todo aquele que nele crê”, Rom 10.4.

Estamos tão corrompidos pelo pecado a ponto de sermos “completamente imundos e abomináveis” e “insuficientes de nós mesmos, ainda que seja para pensar um bom pensamento?” Ele tem nele uma fonte de graça para “nos purificar de nossa imundícia” e para nos purificar para si um povo peculiar, zeloso de boas obras. Estamos expostos a males graves e múltiplas tentações? Nele há compaixão ilimitada para simpatizar conosco, e poder irresistível para nos socorrer e apoiar, Heb 4.15.

Assim, ele tem em si a plenitude de luz para instruir; de mérito para justificar; de graça para renovar; de compaixão para com piedade e poder nos salvar, mesmo para a maior de todas as nossas necessidades. Esta plenitude, no entanto, não é a mesma que habita no seu povo crente.

Há uma plenitude com a qual os crentes são cheios, mesmo “toda a plenitude da divindade”, mas a deles é amplamente diferente da dele. A deles é limitada, sendo apenas “de acordo com a medida do dom de Cristo”, mas a sua é sem limites, “o Pai não lhe dá o Espírito por medida”, ele tem a plenitude do Espírito habitando e permanecendo nele, João 3.34.

A deles além disso é derivada dele como sua boa fonte; mas a sua é essencialmente inerente a ele: “Nele estava a vida” originalmente; “como o Pai tem a vida em si mesmo, assim ele tem dado ao Filho ter vida em si mesmo”. A deles é para eles somente, e não têm com comunicá-la a quaisquer outros; a sua é para o uso e benefício da sua Igreja; e sendo a Cabeça de todos, ele pode transmiti-la, e “preencher todas as coisas”. A deles é perecível; apesar de estarem cheios de plenitude agora, podem ser destituídos da mesma num instante, se as comunicações do céu forem interceptadas ou retidas, mas a sua é imutável e eterna; ele é “o mesmo ontem, hoje e para sempre”.

Temos recebido de Cristo “graça sobre graça”. Temos transmitida a nós, nesta nova dispensação, uma mais ampla medida da graça, e em sucessão constante e abundância mais rica; e o Seu objetivo ao nos conceder tal abundância da graça e o dom da justiça, é para que possam nos transformar à sua própria semelhança.

E este é o efeito que ele produz, como um pai gera um filho à sua própria semelhança, ou como um selo estampa a sua própria imagem na cera, por isso, o Senhor Jesus nos comunica as próprias graças que há nele, para que sejamos “transformados à sua imagem de glória em glória”. Tudo isso ele faz puramente “de sua própria boa vontade”, e para a honra do nome de seu Pai. Ele não vê qualquer coisa em nós que possa merecer tão indizíveis favores; mas porque o tem prometido: “terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão.”, Rom 9.15.

Parte de um texto de autoria de Charles Simeon, traduzido e adaptado pelo Pr Silvio Dutra.


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