O Cristo de PATMOS

0

Partes de um sermão de Charles Haddon Spurgeon, traduzidas e adaptadas pelo Pr Silvio Dutra.

“E virei-me para ver quem falava comigo. E, virando-me, vi sete castiçais de ouro;
E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa comprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro.
E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo;
E os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha, e a sua voz como a voz de muitas águas.
E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.
E eu, quando o vi, caí a seus pés como morto; e ele pôs sobre mim a sua destra, dizendo-me: Não temas; Eu sou o primeiro e o último;” (Apocalipse 1.12-17)

O Senhor Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre. Não tendo nem princípio de dias, nem fim de anos, Ele é sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque. Mas os pontos de vista que seu povo tem dEle são extremamente variados. De acordo com o nosso progresso na Graça, será o ponto de vista no qual vemos o Salvador; e de acordo com a posição a partir da qual olhamos para Ele. Cristo é o mesmo, mas nem todos os crentes o veem na mesma luz clara, nem têm o mesmo nível de comunhão. Alguns somente conhecem os Seus ofícios; outros apenas admiram Seu caráter; mas há alguns que têm avançado ainda mais – que têm vindo a sentir a unidade de toda a Igreja com a Pessoa de Jesus Cristo seu Senhor.

Há alguns crentes que veem Cristo como Simeão que o viu quando era um bebê. Ele o tomou em seus braços, e estava tão feliz, que disse: “Agora, Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra.”
Conhecem a Cristo como um bebê – um Salvador que poderiam pegar em seus braços, a quem poderiam apreender pela fé e chamar de seu. É um avanço, no entanto, quando não somente podemos levar Cristo, mas podemos ver Cristo levando-nos em Seus braços; quando podemos ver não somente como apreendemos dEle pela fé, mas como Ele nos apreende na Aliança Eterna, e tornou-se a semente de Abraão, e foi feito à sua semelhança, para que pudesse redimir as nossas almas.

Mas, meus queridos irmãos e irmãs, os discípulos de Jesus Cristo o conheciam em um grau mais elevado do que Simeão – porque eles não o viram simplesmente como O Encarnado – mas como seu Profeta e Mestre. Sentaram-se a seus pés; ouviram Suas palavras; sabiam que ninguém havia falado como Ele. Sob Seu ensino foram levados a um alto grau de conhecimento. Ele lhes deu os textos divinos a partir dos quais, quando o Espírito tinha descido, tiraram lições sagradas que ensinaram à multidão.

Há centenas de crentes que receberam a Cristo e que olham para Ele com reverência como o rabino de sua fé. Sim, mas houve um dos discípulos, pelo menos, que sabia que Jesus Cristo era ainda mais do que isso! Lá estava um escolhido dentre os doze, que conhecia a Cristo como um querido companheiro, e doce Amigo. Lá estava alguém que conhecia Seu seio como um travesseiro para a cabeça cansada, aquele que tinha sentido Seu coração bater perto de seu rosto – aquele que tinha estado com Ele no monte da Transfiguração e que tinha desfrutado comunhão com o Pai, através de Seu Filho Jesus Cristo.
Agora eu temo que aqueles que avançam em conhecimento tanto quanto João fizera, não são muitos.

Caros amigos, a vocês que amam o Salvador, desejo nada mais do que vejam mais e mais dEle! Meu desejo é que você possa vê-Lo como Ele é. Gostaria que você tivesse visto como Ele foi transfigurado. Pedro, Tiago e João ficaram ofuscados quando Sua vestimenta se tornou branca e resplandecente e apareceram Moisés e Elias, falando com Ele?
Eu sei, também, que você gostaria de tê-Lo visto no Jardim do Getsêmani. Oh, ter presenciado Sua agonia, ter ouvido os Seus gemidos, ver as marcas do suor de sangue em Sua face.
Mas talvez alguns de vocês já desejaram tê-Lo visto na cruz para trazer salvação ao mundo.
Mas, oh, meus irmãos e irmãs, por que deveríamos? Porque nós não temos visto tudo pela fé em Cristo?

Oh, que maravilha teria sido termos visto o Salvador, na manhã da Ressurreição – e quando Ele estava no meio dos discípulos, e a porta estando fechada disse: “Paz seja convosco!” Quão agradável teria sido estar no topo da montanha e ter visto como Ele ascendeu ao céu, abençoando os Seus discípulos.
Certamente poderíamos muito bem ter o desejo de passar a eternidade em visões como estas!
Mas permita-me dizer que eu acho que a imagem do nosso texto é preferível a qualquer outra, e se você tem desejos, em relação ao que já mencionei, você deveria ter muito mais intenso anseio de ver Cristo como João o viu nessa visão, pois esta é, talvez, a mais completa, a mais excelente, e, ao mesmo tempo, a mais importante manifestação de Cristo, que nunca tinha sido vista por olhos humanos.

Alguns podem estar inclinados a dizer, “o pregador selecionou uma passagem muito curiosa da Escritura; que pode agradar a nossa extravagância, mas que pode ser de nenhum benefício espiritual para nós.” Meus amigos, vocês laboram sob um grande erro, e eu confio que possa convencê-los disso, em um minuto ou dois.
Lembrem-se que esta representação, esta imagem simbólica de Cristo, é uma representação do mesmo Cristo que sofreu por nossos pecados.

João o chama de o Filho do Homem – que nome doce e humilde pelo qual Jesus era tão conhecido ao descrever a Si mesmo. João fala de Cristo como sendo semelhante ao Filho do homem, e eu acho que ele queria dizer que ele percebia em Sua majestade, a semelhança com Aquele a quem havia conhecido em Sua humilhação.
Além disso, esta imagem representa para nós o que Cristo é agora, e, portanto, seu valor é extremo. O que Ele era quando Ele esteve aqui na terra é muito importante para mim, mas o que Ele é agora é muito mais uma questão de consequência vital.
Nós queremos saber hoje, no meio da presente contenda, e presente dor e conflito, o que Jesus Cristo é agora. E isso se torna ainda mais importante, porque o que Ele é agora é o que seremos.

E ainda uma terceira consideração empresta importância ao tema do nosso texto, ou seja, que Cristo no texto é representado como o que Ele é para as Igrejas. Você vai perceber que Ele é retratado como estando no meio dos candelabros de ouro, que representam as Igrejas.
Gostamos de saber o que Ele é para as nações; o que Ele é para os judeus; o que Ele será para seus inimigos; mas é melhor para nós, como membros de Igrejas Cristãs, saber o que Ele é para as Igrejas, de modo que cada membro da Igreja deveria dar uma atenção séria a esta passagem.

E eu poderia acrescentar ainda mais – eu acho que o assunto de nosso texto é valioso quando consideramos qual é o efeito que teria sobre nós se realmente o sentíssemos e entendêssemos, pois iríamos cair aos pés de Cristo como mortos, tal como sucedeu a João. Nós nunca estamos tão vivos como quando estamos mortos a Seus pés. Nós nunca estamos tão verdadeiramente vivendo como quando a velha criatura morre na presença do rei Todo-Glorioso. Eu sei isso, que a morte de tudo o que é pecaminoso em mim é a maior ambição de minha alma, sim, e a morte de tudo o que é carnal, e tudo o que cheire ao velho Adão.
“Tire os sapatos, porque o lugar em que estás é terra santa.”

Se Deus manifestou em uma sarça que ardia comandos solenes, que diremos de Deus manifestado em Cristo, e manifestado desta maneira mais maravilhosa?
As palavras de nosso texto são símbolos – elas não devem ser entendidas literalmente. Cristo não aparece no céu sob esta forma literal, mas este é o aparecimento que foi visto pelo intelecto de João. João não era tão ignorante para entender isto literalmente; ele sabia que os castiçais não eram castiçais, mas representavam as sete igrejas dando luz. Ele sabia que as estrelas não eram estrelas, mas os ministros, e ele entendeu que a descrição inteira era um símbolo do espírito que ela contemplava na visão, e não palavras literais.

Mas, para começar – “E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa comprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro.” Temos, em primeiro lugar, Cristo como Ele é hoje, uma imagem de Sua dignidade oficial, e de Suas honras reais. Vestido de uma roupa até os pés. Este era o manto constantemente usado por reis. Esta também era a veste peculiar do sacerdote. Cristo, então, afirma assim vestido, Sua Realeza e Seu Sacerdócio eterno. Pode indicar a verdade, também, que Ele se vestiu com a justiça.

Ele estava cingido com uma faixa ou cinto de ouro. Os cintos de outros sacerdotes não eram de ouro; o do sumo sacerdote era feito principalmente de metais preciosos, e estava cingido no peito – não na cintura – mas em todo o peito como se quisesse mostrar que o amor de Cristo, ou o lugar onde seu coração bate mais amorosamente, era apenas o local onde ele vinculou firmemente sobre Si mesmo as vestes de Sua dignidade oficial; como se o Seu amor fosse o cinto fiel de Seus lombos; como se o afeto de seu coração sempre estivesse preso a Ele firmemente para a realização de todos os ofícios que tem realizado para nós.
“E a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca.”

Vemos Cristo agora como o Ancião de Dias eterno. Cremos que Ele não é o Cristo de apenas 2.000 anos atrás, mas, antes da fundação do mundo Ele era um com o Pai Eterno. Quando vemos a imagem de Sua cabeça, e Seus cabelos brancos como a neve, entendemos a antiguidade do seu reinado. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Quando todas estas coisas não existiam, quando as antigas montanhas não tinham sido erigidas, antes de os luminares do céu serem acesos, quando Deus habitava sozinho em sua imensidão, Jesus estava na eternidade com Deus! Nós sabemos que Ele disse, “Antes que Abraão existisse, eu sou.”
Sem dúvida, há aqui juntamente com a ideia de antiguidade, a de reverência. Homens se levantam diante das cãs e pagam a devida homenagem.

Aquele que é, e que era, e que há de vir, o Alfa e o Ômega, a Ele seja dada glória, e honra, e poder, e a força, para sempre. Amém.
“Seus olhos eram como chamas de fogo.” Isso representa a supervisão de Cristo em Sua Igreja. Como Ele é, na Igreja, o Ancião de Dias Eterno, o Pai da Eternidade, e Sua cabeça deve ser reverenciada, assim é o Supervisor Universal, o grande Bispo e Pastor das almas.
E Ele tem olhos penetrantes! “Como chamas de fogo.” Como chamas de fogo que derretem a escória e só deixam o puro metal.
Seus olhos são lâmpadas para si mesmos. Na Igreja em densa escuridão, quando ela for pisada, quando nenhuma luz brilhar sobre ela, Ele a vê – porque Seus olhos são “como chamas de fogo.” Oh, que doce consolo isto deve ser para um filho de Deus! Se você não pode dizer ao seu Senhor onde você está, ele pode ver você.
Ele é a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo, e Ele vê pela Sua luz tudo o que se passa na vida de vocês.
“E os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha.”

Acho que podemos entender por isso, a Igreja de Deus na Terra – aqueles santos unidos a Cristo, que são a parte inferior do corpo; que estão nestes tempos ainda pisando a terra. Cristo está no Céu, Sua cabeça é como “o sol que brilha na sua força.” Cristo está na terra, no meio da Sua Igreja, e onde seus pés caminham entre os castiçais de ouro, em fogo. Eles são como latão refinado numa fornalha. Agora, nós pensamos que onde quer que Cristo esteja, haverá o fogo da provação para a Sua Igreja. Eu nunca iria acreditar que estávamos do lado do Senhor, se todos os homens estivessem do nosso lado; se as palavras que falamos não seriam constantemente deturpadas, não poderíamos imaginar que falamos as Palavras de Deus; se sempre fôssemos entendidos, pensaríamos que não falamos aquelas coisas que a mente carnal não pode receber! Não, irmãos, – não esperem facilidade! Não espere que deve alcançar a coroa, sem sofrimento. Os pés de Cristo queimam na fornalha, e você pertence a Seu corpo.

Os pés de Cristo eram de bronze. Eles eram de metal que não podia ser consumido. E assim é a Igreja de Cristo!
“E a sua voz como a voz de muitas águas.” A voz de Cristo é uma voz que é ouvida no Céu. Os anjos se curvam diante dEle!
Tal é a voz do ministério de Cristo na terra! Pode parecer frágil, mas nunca é.
“E ele tinha na sua mão direita sete estrelas.” A Igreja deve sempre ver Cristo como segurando seus ministros. Ministros estão sempre em perigo. Mas os ministros de Cristo, embora estejam em perigo, são perfeitamente seguros! Ele segura as sete estrelas. As Plêiades celestes do Evangelho estão sempre na mão de Cristo. E quem pode arrancá-los de lá?
“De sua boca saía uma espada afiada de dois gumes.”

Para aqueles que são abençoados sob a Palavra – esta é qual uma espada de dois gumes para eles! Como ela mata sua justiça própria! Como corta a garganta do seu pecado! Como ela coloca seus desejos mortos aos pés de Jesus! Como tudo subjuga ao Filho!
“E o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece.”
Como eu posso imaginar isso? Vá ao exterior e fixe os olhos no sol, se você puder. Será que isso não vai cegá-lo?
O rosto de Cristo! Que glória, que majestade, que luz, que calor e que força!
Mas, Jesus, vira Seu rosto e olha para nós. É meia-noite, mas se você olhar Seu rosto, deve ser meio-dia, porque o Seu rosto é como o sol!
A Glória, pode nos cegar – mas se olharmos para Ele com humildade, para que possamos receber Sua Luz, Ele vai fazer os nossos olhos mais fortes do que eram, e derramará luz para a escuridão mais espessa do nosso desespero!


DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here