Sobre o Melhor Modo de Orar

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Como devemos melhorar nossas formas de oração, e como aumentar o espírito de devoção.
Tendo mostrado nos capítulos anteriores, a necessidade de um espírito devoto, ou hábitos espirituais em todas as partes da nossa vida comum, no desempenho de todos os nossos negócios, no uso de todos os dons de Deus; vou considerar agora aquela parte da devoção, que se refere aos tempos de horas de oração .

Eu tenho isto como algo garantido, que cada cristão, que é saudável, se levanta cedo pela manhã, porque é mais do que razoável supor que se levante cedo, porque ele é um cristão, tanto quanto se ele é um trabalhador ou um comerciante, ou que tenha outros negócios aguardando por ele.

Nós, naturalmente, temos alguma aversão a um homem que está na cama, quando ele deveria estar no seu trabalho, ou em seu negócio. Nós não podemos pensar nada de bom dele, que é como um escravo da sonolência, assim como negligencia seus deveres por causa disso.

Isto portanto, nos ensina quão odiosos devemos parecer aos olhos do céu, se estamos na cama, calados nas trevas do sono, quando deveríamos estar louvando a Deus; e somos não apenas escravos do sono, como negligenciamos nossas devoções a ele.

Porque, se deve ser responsabilizado como um preguiçoso, aquele que escolhe a indulgência do sono, e deixa de realizar a sua parte adequadamente nos negócios do mundo, quanto mais aquele que permanece em sua cama, e que não eleva o seu coração a Deus em atos de louvor e adoração?

A oração é a maior forma de aproximação a Deus, e o modo de ter o maior desfrute dele, que somos capazes de ter nesta vida.

Ela é o exercício mais nobre da alma, o uso mais exaltado de nossas melhores faculdades, e a máxima imitação dos bem-aventurados habitantes do céu.

Quando nossos corações estão cheios de Deus, enviando santos desejos para o trono da graça, então estamos em nosso estado mais elevado, estamos na maior altura da grandeza humana, não estamos diante de reis e príncipes, mas na presença e audiência do Senhor de todo o mundo, e não pode haver mais alto privilégio e honra, até que a morte seja tragada em glória. Por outro lado, o sono é o mais pobre, o mais maçante refrigério do corpo, que está muito longe de ser concebido como um prazer, porque somos forçados a recebê-lo.

O sono indolente é um estado tão estúpido da existência, que, mesmo entre os animais, nós desprezamos aqueles que são mais sonolentos e indolentes.

Aquele, portanto, que escolhe, ampliar a indulgência indolente do sono, ao invés de levantar cedo, para as suas devoções a Deus, opta pelo refrigério mais maçante do corpo, antes do mais elevado, mais nobre emprego da alma. Talvez você dirá, que embora você se levante tarde, todavia é sempre cuidadoso com suas devoções quando está acordado.

Pode ser assim. Mas o que dizer então? É um bom ato acordar tarde, porque você ora, quando se levanta da cama? É perdoável desperdiçar grande parte do dia na cama, pois algum tempo depois fará suas orações?

É tanto o seu dever se levantar para orar, como orar quando você está acordado. E se você está atrasado em suas orações, você tem para oferecer a Deus as orações de um adorador preguiçoso e ocioso, que sobem como orações, assim como servos ociosos se levantam para executar o seu trabalho.

Além disso, se você gosta de ser cuidadoso em suas devoções, quando está acordado, apesar de ser o seu costume se levantar tarde, você engana a si mesmo, porque não pode executar as suas devoções como deveria . Porque aquele que não pode negar a si mesmo esta indulgência sonolenta, senão passar boa parte da manhã na mesma, não está mais preparado para a oração quando está acordado, do que está preparado para qualquer outra auto-negação. Porque dormir assim indolentemente, transmite uma ociosidade a todos os nossos comportamentos, e nos torna incapazes de apreciar qualquer coisa, senão aquilo que se adapte a tal estado de mente, e que gratifique nossos gostos naturais, como faz o sono.

Ora, aquele que transforma o sono em uma indulgência ociosa, faz tanto para corromper e desordenar a sua alma, para torná-la uma escrava dos apetites do corpo, e mantê-la incapaz de toda devoção de um comportamento santo, assim como aquele que transforma as necessidades de alimentação, num curso de indulgência.

Uma pessoa que come e bebe muito, não sente os efeitos disto, como aqueles que vivem em casos notórios de gula e intemperança, mas ainda o seu curso de indulgência, embora não seja escandaloso aos olhos do mundo, nem atormente sua própria consciência, é um grande e constante obstáculo para sua melhoria em virtude, porque isto lhe dá olhos que não veem, e ouvidos que não ouvem, que cria uma sensualidade na alma, aumenta o poder das paixões corporais, e lhe torna incapaz de alcançar o verdadeiro espírito da religião cristã.

Agora este é o caso daqueles que perdem o seu tempo durante o sono; isto não desordena suas vidas, ou fere suas consciências, como os atos notórios de intemperança, mas como qualquer outro curso imoderado de indulgência, silenciosamente, e por graus menores, desgasta o espírito da religião, e afunda a alma num estado de dolência e sensualidade.

Se você considerar a devoção apenas como um certo momento de oração, você talvez a cumpra, apesar de viver neste indulgência diária: Mas se você considerá-la como um estado do coração, como um vivo fervor da alma, que é profundamente afetada com um senso de sua própria miséria e fraquezas, e sua necessidade do Espírito de Deus, mais do que todas as coisas do mundo, você vai achar que o espírito de indulgência, e o espírito de oração, não podem subsistir juntos. Uma mortificação de todos os tipos, é a própria vida e alma da piedade, mas aquele que não tem o menor grau disto, de modo que não começa desde cedo suas orações, não pode ter nenhuma razão para pensar que ele tomou a sua cruz , e que está seguindo a Cristo.

Se o nosso bendito Senhor costumava orar antes de iniciar o dia, se ele passou noites inteiras em oração, se a devotada Ana estava dia e noite no templo, se Paulo e Silas, à meia-noite, cantaram louvores a Deus, se os cristãos primitivos, por vários anos, além de suas horas de oração ao meio-dia, se reuniam publicamente nas Igrejas à meia-noite, para se juntarem nos Salmos e Orações, não é certo que estas práticas mostram qual era o estado do seu coração? Não são provas claras da completa mudança de suas mentes?

E se você vive em um estado contrário, perdendo grande parte de cada dia com o sono, pensando muito pouco sobre as orações; não é igualmente certo, que esta prática tanto mostra o estado de seu coração, e a inclinação de sua mente?

De modo que , se esta indulgência é o seu modo de vida, você tem muita razão para acreditar-se destituído do verdadeiro espírito de devoção, como você crê que os apóstolos e santos da Igreja Primitiva eram verdadeiramente devotos. Porque, assim como o seu modo de vida foi uma demonstração da devoção deles, de igual modo, um caminho contrário de vida, é uma forte prova de falta de devoção.

Quando você lê as Escrituras, você vê uma religião que é toda vida e espírito, e de alegria em Deus, que supõe a nossa alma subindo acima dos desejos terrenos, e das indulgências corporais, para se preparar para outro corpo, um outro mundo, e outros prazeres. Mas quem pode ter pensado ter essa alegria em Deus, esta aspiração pela eternidade, esse espírito vigilante, se não tiver zelo suficiente para se levantar para as suas orações?

A primeira coisa que você deve fazer, quando você estiver sobre os seus joelhos, é fechar os olhos e, com um breve silêncio deixe a sua alma se colocar na presença de Deus, ou seja, você deve usar isso, ou algum outro método melhor, para se separar de todos os pensamentos comuns, e fazer seu coração tão sensível quanto você possa da presença divina.

Agora, se esse recolhimento em espírito é necessário, quem pode dizer que não é? então, quão pobremente devem realizar suas devoções, aqueles que estão sempre com pressa?

Para continuar, se você pudesse usar (tanto quanto possível) sempre o mesmo lugar para orar, se você pudesse reservar esse lugar para a devoção, este tipo de consagração do mesmo, como um lugar de devoção, teria um efeito em sua mente , e lhe disporia a estar animado para a sua devoção. Porque ter um lugar assim, sagrado em seu quarto, faria com que estivesse sempre no espírito da religião, quando lá estivesse, e lhe encheria com pensamentos sábios e santos. O seu próprio quarto elevaria em sua mente, tais sentimentos que você temeria pensar ou fazer qualquer coisa que fosse tola nesse lugar, que é o lugar de oração, e santificado para Deus.

Quando você começar suas petições, use várias expressões dos atributos de Deus, que podem fazê-lo mais sensível da grandeza e poder da natureza divina.

Embora, a oração não consista em belas palavras, ou expressões estudadas, ainda assim as palavras falam à alma, como elas têm um certo poder de elevar os pensamentos na alma, por isso, aquelas palavras que falam de Deus da maneira mais elevada, e que mais plenamente expressam o poder e a presença de Deus, e que elevam pensamentos na alma mais adequados à grandeza e providência de Deus, são as mais úteis e mais edificantes em nossas orações.

Quando você dirigir qualquer uma de suas petições para o nosso bendito Senhor, poderá usar algumas expressões deste tipo: Oh Salvador do mundo, Luz da luz, tu que és o brilho da Glória do Pai, e a expressa imagem da sua Pessoa; tu que és o Alfa e o Ômega, o Princípio e Fim de todas as coisas, tu que tens destruído o poder do diabo, e que tens vencido a morte, tu que és celebrado no Santo dos Santos, que estás à mão direita do Pai, que a estás acima de todos os tronos e principados, que intercede por todo o mundo, tu que és o juiz dos vivos e dos mortos, tu que virás depressa na tua Glória para recompensar todos os homens segundo as suas obras, seja tu a minha luz e a minha paz.

Porque essas expressões, que descrevem tantos caracteres do nosso Salvador, sua natureza e poder não são apenas os próprios atos de adoração, mas, se forem repetidas com alguma atenção, encherão os nossos corações com os mais altos fervores da verdadeira devoção .

Ainda, se você pedir alguma graça especial de nosso bendito Senhor, que seja de alguma maneira como esta:

Oh santo Jesus, Filho do Deus Altíssimo, tu que foste açoitado, pendurado e pregado numa cruz, pelos pecados do mundo, una-me à tua cruz, e enche a minha alma com o teu santo, humilde e sofredor espírito. Oh Fonte de misericórdia, tu que salvaste o ladrão na cruz, salva-me da culpa de uma vida pecaminosa, tu que expulsaste sete demônios de Maria Madalena, expulsa do meu coração todos os maus pensamentos, e comportamentos maus . Oh Doador da vida, tu que ressuscitaste Lázaro de entre os mortos, levanta a minha alma da morte e da escuridão do pecado. Tu que deste a tua força aos apóstolos sobre os espíritos imundos, dá-me poder sobre meu próprio coração. Tu que apareceste a teus discípulos, quando as portas se fecharam, apareça no aposento secreto do meu coração. Tu que limpaste os leprosos, curaste os doentes, e deste vista aos cegos, limpa meu coração, cura as doenças da minha alma, e encha-me com a luz celestial.

Agora esses tipos de apelos têm uma dupla vantagem: primeiro, como eles são muito apropriadamente atos de nossa fé, pelos quais não somente mostramos a nossa crença nos milagres de Cristo, como também os transformamos ao mesmo tempo em muitas instâncias de culto e adoração.

Em segundo lugar, como eles fortalecem e aumentam a fé de nossas orações, ao apresentarem à nossa mente tantos casos daquele poder e bondade, que apelamos para a nossa própria assistência.

Porque o que apela a Cristo, como quem tem o poder de expulsar demônios, e ressuscitar os mortos, então tem um motivo poderoso em sua mente para orar sinceramente, e depender fielmente da sua assistência.

Mais uma vez, a fim de encher as suas orações com excelentes meios de devoção, pode ser de utilidade que você observe mais esta regra: Quando, em qualquer momento, quer na leitura da Escritura, ou de qualquer livro de Piedade, você se encontra com uma passagem, que mais do que o normal afeta a sua mente, e parece como se fosse dar ao seu coração um novo impulso em direção a Deus, você deve tentar transformá-lo numa forma de petição e, então, dar-lhe um lugar em suas orações.

Por este meio você poderá, muitas vezes, melhorar suas orações e se equipar com formas apropriadas, para fazer os desejos do seu coração conhecidos diante de Deus. Em todas as horas determinadas de oração, será de grande benefício para você, ter algo fixo, e algo em liberdade, nas suas devoções.

Você deve ter algum tema fixo, que deve ser constantemente o principal motivo de sua oração naquele momento em particular, e ainda ter liberdade para adicionar outras petições, como a sua condição pode então exigir.

Por exemplo, como a parte da manhã é para você como o início de uma nova vida; assim como Deus então, lhe deu um novo regozijo em si mesmo, e uma renovada entrada para o mundo, é altamente adequado, que suas primeiras devoções sejam um louvor e ação de graças a Deus, por esta nova criação, e que você deve oferecer e dedicar corpo e alma, tudo o que você é, e tudo o que você tem, a seu serviço e glória.

Receba, portanto, todos os dias, como uma ressurreição da morte, como uma nova apreciação da vida; receba cada sol nascente com tais sentimentos da bondade de Deus.

Deixe, portanto, que o louvor e ação de graças, e a oferta de si mesmo para Deus, sejam sempre o assunto fixo e certo de sua primeira oração pela manhã, e então tome a liberdade de adicionar as outras devoções, como a diferença acidental de sua condição ou de seu coração, e tudo o mais que seja mais necessário e conveniente para você.

Porque um dos maiores benefícios de devoção privada, consiste na adaptação de nossas orações a essas duas condições, relativas à diferença de nosso estado, e à diferença dos nossos corações. Por diferença do nosso estado, me refiro às mudanças de nossas condições externas, como doença, saúde, dores, perdas, decepções, problemas, misericórdias ou juízos de Deus, todos os tipos de bondades, lesões ou reprovações de outras pessoas.

Agora, como estes são grandes partes do nosso estado de vida, como eles fazem grande diferença nele, mudando continuamente, por isso a nossa devoção será feita duplamente benéfica para nós, quando se destina a receber e santificar todas essas mudanças do nosso estado, e transformá-los numa aplicação mais especial a Deus.

A próxima condição, para a qual devemos sempre adaptar algumas partes de nossas orações, é a diferença de nossos corações; em relação ao amor, alegria, paz, tranquilidade; doçura e aridez de espírito, ansiedade, descontentamento, inveja, ambição, tristeza e pensamentos desconsoladores, ressentimentos, e toda sorte de sentimentos e disposições impertinentes.

Agora, como esses comportamentos, em razão da fraqueza de nossa natureza, terão sua sucessão mais ou menos, mesmo nas mentes piedosas, deste modo devemos fazer constantemente o estado atual do nosso coração, o motivo de alguma petição específica para Deus.

Se estamos na calma prazerosa de doces e suaves sentimentos de amor e alegria em Deus, devemos, então, oferecer o tributo de ações de graça, pela posse de tanta felicidade, agradecendo e lhe reconhecendo como sendo o Doador de tudo isto. Se, por outro lado, nos sentimos sobrecarregados e oprimidos, com ansiedade de espírito e mal-estar, devemos então olhar para Deus em atos de humildade, confessando nossa indignidade, contando os nossos problemas a ele, rogando-lhe para diminuir o peso das nossas fraquezas, e para livrar-nos de tais sentimentos que se opõem à pureza e à perfeição de nossas almas.

Agora, por observarmos isto, e atendermos ao estado atual de nossos corações, e adequando algumas de nossas petições exatamente à sua necessidade, devemos não somente estar bem familiarizados com os distúrbios de nossas almas, mas também ser bem exercitados no método de curá-los.

Embora o espírito de devoção seja dom de Deus, e não atingível por qualquer mero poder propriamente nosso, todavia é principalmente dado e nunca retido, para aqueles que por um uso sábio e diligente uso de meios adequados, se preparam para a recepção do mesmo.

E é incrível ver, quão ansiosamente os homens empregam a sua sagacidade, tempo, estudo, aplicação e exercício; quando alguma coisa se destina a atender suas intenções e desejos em assuntos mundanos, e quão negligentemente e tão pouco eles usam sua sagacidade e habilidades, para elevar e aumentar a sua devoção!

Para corrigir esse comportamento, e encher um homem com um espírito bastante contrário a isto, não parece haver nada mais necessário, do que a nua fé da verdade do cristianismo.

Para concluir este capítulo, Devoção nada mais é do que certas apreensões e afeições corretas para com Deus.
Todas as práticas, portanto, que aumentam e melhoram as nossas verdadeiras apreensões de Deus, todas as formas de vida que tendem a nutrir, levantar, e corrigir nossas afeições sobre ele, devem ser contadas como meios de ajuda para nos encher de devoção.

Como a oração é o combustível adequado desta chama sagrada, por isso devemos usar todo o nosso cuidado e artifício para dar à oração todo o seu poder, como por esmolas, abnegação, retiros, e as leituras sagradas, e observando horas de oração; mudando, improvisando, e adequando nossas devoções à condição de nossa vida, e ao estado dos nossos corações.

Aqueles que têm mais tempo livre, parecem ser mais especialmente chamados a uma observância mais eminente dessas regras sagradas de uma vida devota.

E aqueles que pela necessidade de seu estado, e não através de sua própria escolha, que têm pouco tempo para empregar na devoção, devem fazer por esta razão, o melhor uso do pouco que têm.
Pois este é o caminho certo de fazer a devoção produzir uma vida devota.

Tradução e adaptação feitas pelo Pr Silvio Dutra, do décimo quinto capitulo do livro de William Law, em domínio público, intitulado Uma Chamada Séria a Uma Vida Santa e Devota. William Law, foi professor e mentor por vários anos de John e Charles Wesley, George Whitefield – principais atores do grande avivamento do século XVIII, que se espalhou por todo o mundo – Henry Venn, Thomas Scott e Thomas Adam, entre outros, que foram profundamente afetados por sua vida consagrada a Deus, e sobretudo pelo conteúdo deste livro.


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