A Experiência e Esperança do Cristão

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“Quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença. Todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita. Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória.” (Sl 73.21-24)

Há, nas Sagradas Escrituras muitas expressões que são difíceis de serem conciliadas mutuamente. Por exemplo, o salmista, nas próprias palavras do nosso texto, diz: “eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença.” No entanto, eis que no mesmo texto ele fala como estando na mais sublime comunhão com o seu Deus, e possuindo uma maior confiança expectante do seu favor. Agora, como isso pode ser explicado? O fato é que ele tinha sido tentado a invejar o mundo ímpio, quando ele viu quão prósperos eles eram, em comparação com muitos dos servos mais fiéis de Deus. Mas quando ele refletiu sobre o fim que os aguardava, ele condenou seus antigos pensamentos, como sendo algo mais pertencente a um ser irracional do que ao julgamento de um verdadeiro santo; e, então, ele percebeu que se encontrava numa posição elevada, muito acima do mais próspero dos homens ímpios, porque qualquer que fosse a necessidade que ele tivesse neste mundo, ele possuía a Deus por seu amigo, seu conselheiro, sua porção eterna.

Inúmeras são as dificuldades com que o cristão se depara, enquanto que em si mesmo não tem poder para vencer a menor delas. Na verdade, ele tem que lutar não somente com a carne e o sangue, mas com todos os principados e poderes do próprio inferno. O que, então, ele deve fazer? Como pode entreter a esperança de ter sucesso? Ele poderia se assentar em franco desespero, mas ele se lembra de que tem com ele, em todos os momentos, um amigo que é todo-poderoso e todo-suficiente para ele.

Ele foi ensinado a olhar para Deus como seu Pai, em Cristo Jesus; ele tinha a plena certeza que desde que ele tinha se refugiado em Cristo, e buscado a reconciliação com Deus através dele, que passou a ter o direito de considerar Deus como um amigo, e confiar às suas mãos todas as suas preocupações. Por isso, ele volta a se compor no meio de todas as suas provações, e se conforta com esta reflexão: “estou sempre com o meu Deus; eu o vejo sempre presente comigo; confiando nele, eu não tenho medo; é um pequeno problema que muitos se levantem contra mim; tendo o Senhor à minha mão direita, eu não preciso de outra ajuda; portanto, faço repousar toda a minha confiança nele, e lanço sobre ele todos os meus cuidados.”

Para melhor entendermos essa ideia, imagine uma criança passando sobre rochas onde há espaço apenas para os seus pés, e onde o caminho é tão escorregadio, que é quase impossível para ela ficar de pé, e onde há precipícios, que por um único passo em falso será feita em pedaços. Imagine agora um pai conduzindo o seu filho amado por todo esse caminho, segurando-o pela mão direita, de modo que ele não pode cair, e levantando-o, se em algum momento ele tropeçar, e preservando-o de todos os perigos aos quais se encontra exposto. Aqui você vê o nosso Deus junto com a alma que confia nele. Nem por um momento ele deixa o santo temeroso; e é completamente em conseqüência dessa ajuda eficaz que qualquer santo no universo está habilitado para prosseguir o seu caminho. Por isso, cada filho de Deus atribui sua segurança Àquele que tem, assim, lhe confirmado.

Conhecendo aquele em quem ele confiava, ele espera orientação em todos os seus caminhos. Ele tem uma noção geral do seu caminho; mas uma infinita variedade de circunstâncias ocorrem de tempos em tempos, tornando difícil discernir qual é o melhor e mais seguro caminho a seguir. Ele está cônscio de que um único passo pode levar a consequências importantes. José foi enviado para visitar seus irmãos. A jornada foi boa, mas oh! a que diversidade de tribulações isto lhe conduziu! Davi também foi enviado para visitar seus irmãos; aqui também a jornada foi boa, e dela resultou a vitória sobre Golias, e a libertação de Israel de seus opressores.

Com a consciência de que somente Deus pode guiá-lo, ele pede conselho ao Senhor a cada passo que dá, e Deus guia seus passos no caminho da paz. Há diversos meios que Deus tem o prazer de usar para dirigir o seu povo; às vezes ele orienta por sua Palavra, às vezes, pelo seu Espírito, às vezes por sua providência, abre ou fecha uma porta, quão seja do seu agrado.

Deus nunca cessará o seu ofício de amor, até que ele tenha concluído todos os seus propósitos graciosos, e cumprido até o máximo os desejos daqueles que esperam nele. É pela Glória que cada alma aguarda, como a consumação de sua bem-aventurança; que é a alegria que está diante de nós, o prêmio da soberana vocação, e Deus irá cumprir para o seu povo todo beneplácito de sua bondade, até que o trabalho que foi iniciado pela graça seja consumado na glória.

As pessoas do mundo pensam que é uma coisa fácil obter o céu, mas o verdadeiro santo pensa muito diferentemente disto. Ele tem que lutar contra a corrente da natureza corrompida pelo pecado, e nadar contra a maré de um mundo voluptuoso. Se fosse uma coisa tão fácil servir ao Senhor, isto nunca teria sido caracterizado por expressões na Bíblia que transmitem uma ideia muito diferente.

Nosso Senhor diz: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação.” A incrédula ansiedade é sem dúvida, para ser posta de lado; mas vigilância e santo temor nunca devem ser interrompidos por um só momento. Pedro sabia, por amarga experiência, quão necessário era este cuidado: “Sede sóbrios , vigiai, porque o vosso adversário, o diabo, como um leão que ruge, anda em derredor, buscando a quem possa tragar.”

A ansiedade é inconsistente com a felicidade. E seria assim, se não soubéssemos onde buscar a graça que é necessária para nós. E até mesmo as tribulações que nos ajudam a sermos conduzidos ao nosso Deus, são os meios que trazem o socorro que Deus prometeu, e de trazer Deus em união mais estreita conosco. Na verdade, é desta descoberta do caráter divino, e destas comunicações da graça celestial, que o crente obtém seus prazeres sublimes, e ele é, então, mais verdadeiramente feliz, quando sua amizade fica mais íntima com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo.

Tradução e adaptação feitas pelo Pr Silvio Dutra, de um texto de Charles Simeon, em domínio público.


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