É Impossível Pois… Hebreus 6.3-6

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Comentário de João Calvino traduzido por Silvio Dutra.

“3 Isso faremos, se Deus permitir.
4 É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo,
5 provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro,
6 e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia.” (Hebreus 6.3-6)

v. 3 – “Isso faremos, etc”. Uma denúncia terrível vem a seguir; mas o apóstolo assim agiu porque os judeus estavam sendo indulgentes com a sua própria letargia, e brincavam com o favor de Deus; como se ele tivesse dito: “Não deveria, neste caso, haver atrasos; pois nem sempre haverá a oportunidade de fazer progressos; que não estão no poder do homem para realizarem, sempre que lhes aprouver, desde o ponto de partida para o alvo; porque o progresso em nosso curso é um dom especial de Deus.”

v. 4 – “Porque é impossível, etc”. Esta passagem tem dado ocasião a muitos a repudiar esta epístola, especialmente porque os Novacianos armaram-se com ela para negar o perdão aos caídos. Assim, aqueles da Igreja Ocidental, em particular, recusaram-se a aceitar a autoridade desta epístola, porque a seita dos Novacianos lhes aborreceu; e eles não estavam suficientemente familiarizados com a verdade, de modo a refutar a posição deles pelo argumento.

Mas quando o desígnio do Apóstolo é compreendido, então parece evidente que não há nada aqui que sancione tão delirante erro. Alguns têm retido a autoridade sagrada da Epístola, enquanto eles tentam dissipar esse absurdo, mas nada fazem, senão evitá-la. Porque alguns tomam “impossível” no sentido de raro ou difícil, que é totalmente diferente do seu significado. Muitos a confinam ao arrependimento pelo qual os catecúmenos na Igreja antiga estavam acostumados a se prepararem para o batismo, como se de fato os apóstolos tivessem prescrito jejum, ou essas coisas para o batizando.

E então a grande coisa que o Apóstolo teria dito, para negar aquele arrependimento, o apêndice do batismo, poderia ser repetido? Ele ameaça com a vingança mais severa de Deus todos aqueles que rejeitaram a graça que tinha sido uma vez recebida; e que peso esta sentença não teria tido para abalar a segurança e mover ao terror, se ele apenas lhes lembrasse que não havia mais espaço para o seu primeiro arrependimento? Porque isso se estenderia a todo tipo de pecado. O que há então para ser dito? Desde que o Senhor dá a esperança da misericórdia a todos, sem exceção, é totalmente razoável que qualquer um por qualquer causa que seja, deveria ser excluído?

O nó da questão está na palavra, caíram ou, se desviaram. Todo aquele que, então, entende o seu significado, pode facilmente livrar-se de todas as dificuldades. Mas deve ser notado, que há um afastamento duplo, em particular, e um outro em geral. Aquele que tem em alguma coisa, ou em quaisquer formas pecado, caiu longe de seu estado como um cristão; portanto, todos os pecados são quedas. Mas o apóstolo não fala aqui de roubo, ou perjúrio, ou assassinato, ou embriaguez, ou adultério; mas ele se refere a uma total deserção ou afastamento do Evangelho, quando o pecador ofende não a Deus em alguma outra coisa, mas inteiramente renuncia à Sua graça.

E para que isso possa ser melhor compreendido, vamos supor um contraste entre os dons de Deus, que ele mencionou, e esta queda. Para ele cai aquele que abandona a palavra de Deus, que extingue sua luz, que se priva do gosto dos céus ou seus dons, que abandona a participação do Espírito. Agora, isso é renunciar totalmente a Deus. Vemos agora que ele excluiu da esperança de perdão, mesmo os apóstatas que se alienaram do Evangelho de Cristo, que já haviam previamente abraçado, e da graça de Deus; e isso não acontece com qualquer um, senão com aquele que peca contra o Espírito Santo. Pois aquele que viola a segunda tábua da Lei, ou transgride a primeira por ignorância, não é culpado desta deserção; nem Deus certamente priva qualquer um de sua graça, de tal forma a abandonar a qualquer um deles, senão somente os réprobos.

Se alguém pergunta por que o Apóstolo faz menção aqui de tal apostasia, enquanto ele está se dirigindo a crentes, que estavam longe de uma perfídia tão hedionda; a isto eu respondo que, o perigo foi apontado por ele na ocasião, para que pudessem estar em guarda. E isso deve ser observado; porque quando nos desviamos do caminho certo, não somente excusamos a outros os nossos vícios, como também os impomos a nós mesmos. Satanás se arrasta furtivamente sobre nós, e aos poucos nos seduz por ardis clandestinos, de modo que quando nos desviamos não sabemos que vamos nos desviar.

Assim, gradualmente, deslizamos, até que finalmente nos precipitamos para a ruína. Podemos observar isso diariamente em muitos. Por isso, o apóstolo não sem razão alertou a tempo todos os discípulos de Cristo para tomarem cuidado; porque um torpor contínuo geralmente termina em letargia, que é seguida por alienação de mente.
Mas é preciso notar, de passagem, os nomes pelos quais ele sinaliza o conhecimento do Evangelho. Ele o chama de iluminação; que, portanto, segue-se que os homens são cegos, até que Cristo, a luz do mundo, os ilumine.

Ele o chama de uma degustação do dom celestial, dando a entender que as coisas que Cristo nos confere estão acima da natureza e do mundo, e que elas são ainda provadas pela fé. Ele o chama de participação do Espírito; pois ele é quem distribui a cada um, como quer, toda a luz e conhecimento que ele pode ter; pois sem ele ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor (1 Coríntios 12.3); ele abre para nós os olhos de nossas mentes, e revela-nos os segredos de Deus. Ele o chama de uma degustação da boa palavra de Deus, pelo que ele quer dizer que a vontade de Deus está nele revelada, não em qualquer tipo de forma, mas de uma forma tão doce para deliciar-nos; em suma, com este título é apontada a diferença entre a Lei e o Evangelho; por que não tem nada, senão a severidade e a condenação, mas este é um testemunho doce do amor de Deus e bondade paternal em relação a nós.

E, por último, ele o chama de uma degustação dos poderes do mundo vindouro, pelos quais ele afirma, que somos admitidos pela fé ao reino do céu, porque nós vemos isto no espírito naquela abençoada imortalidade que é oculta aos nossos sentidos.
Vamos, então, saber, que o Evangelho não pode ser de outra forma corretamente conhecido a não ser pela iluminação do Espírito, e que sendo assim afastados do mundo, somos elevados para o céu, e por este conhecimento da bondade de Deus nós confiamos em sua palavra.

Mas aqui surge uma nova pergunta, como pode ser que aquele que uma vez tendo feito tal progresso deve ser lançado fora? Por que Deus, isto pode ser dito, não chama ninguém eficazmente, senão os eleitos, e Paulo testifica que eles são realmente seus filhos que são guiados pelo seu Espírito (Romanos 8.4) e ele nos ensina, que é uma garantia segura de adoção quando Cristo nos torna participantes de seu Espírito. Os eleitos também estão fora do perigo de cair finalmente; porque o Pai, que lhes deu serem preservados por Cristo, seu Filho é maior que todos, e Cristo promete cuidar de todos eles para que nenhum pereça.

A tudo isso respondo, que Deus de fato a ninguém favorece, senão somente os eleitos com o Espírito de regeneração, e que, por isso, eles são distintos do réprobo; porque eles são renovados à Sua imagem e recebem o penhor do Espírito na esperança da herança futura, e pelo mesmo Espírito, o Evangelho é selado em seus corações. Mas eu não posso admitir que tudo isso é alguma razão para que ele não deveria conceder ao réprobo também algum sabor da sua graça, por que ele não deveria irradiar suas mentes com algumas faíscas de sua luz, por que ele não deveria dar-lhes alguma percepção de sua bondade, e em alguma maneira gravar a sua palavra em seus corações. Caso contrário, onde estaria a fé temporal, mencionada por Marcos 4.17?

Há, portanto, um pouco de conhecimento, mesmo no réprobo, que mais tarde desaparece, ou porque ele não lança raízes suficientemente profundas, ou porque ele murcha, sendo sufocado.
E por este freio o Senhor nos guarda em temor e humildade; e certamente vemos quão propensa a natureza humana está para outra forma de segurança e confiança tola. Ao mesmo tempo, a nossa solicitude deve ser de tal modo a não perturbar a paz de consciência. Porque o Senhor fortalece a fé em nós, enquanto ele subjuga nossa carne; e, portanto, ele faz a fé permanecer e descansar tranquilamente como em um porto seguro; mas ele exercita a carne com vários conflitos, para que não possa crescer em devassidão por meio da ociosidade.

v. 6 – “Renová-los novamente para arrependimento, etc”. Embora isto pareça duro, ainda não há nenhuma razão para atacar a Deus com crueldade, quando alguém sofre apenas a punição de sua própria deserção; nem é isto inconsistente com outras partes das Escrituras, onde a misericórdia de Deus é oferecida aos pecadores, logo que eles aspiram por ela (Ezequiel 18.27); porque o arrependimento é requerido, aqueles que nunca sentem realmente que uma vez se achavam totalmente afastados do Evangelho; porque são privados, como merecem, do Espírito de Deus e entregues a um sentimento perverso, e assim sendo escravos do diabo são precipitados na destruição.

Assim acontece que eles não cessam de acrescentar pecado a pecado, até serem completamente endurecidos, desprezam a Deus, ou como os homens em desespero, expressam loucamente seu ódio a ele. O fim de todos os apóstatas é, que eles são enlouquecidos com estupor, e nada temem, ou a maldição de Deus, seu juiz, porque eles não podem escapar dele.
Em suma, o apóstolo nos adverte, que o arrependimento não é da vontade do homem, mas é dado por Deus apenas para aqueles que não caíram completamente da fé. É uma advertência muito necessária para nós, para que não retardemos frequentemente para o amanhã, porque poderíamos alienarmo-nos nós mesmos cada vez mais de Deus.

Os ímpios, na verdade enganam a si mesmos por dizeres como este, – que será suficiente se arrependerem de sua vida ímpia em seu último suspiro. Mas quando eles chegam à morte, os tormentos terríveis de consciência que eles sofrem, prova-lhes que a conversão do homem não é um trabalho comum. Assim, então, como o Senhor não promete perdão a ninguém, senão àqueles que se arrependem de sua iniquidade, não é para admirar que pereçam aqueles que através de desespero ou desprezo, se apressem em sua obstinação à destruição. Mas quando alguém se levanta depois de cair, podemos, portanto, concluir que ele não tinha sido culpado de deserção, embora possa ter pecado gravemente.

“Crucificando de novo, etc”. Ele também adiciona isto para defender a severidade de Deus contra as calúnias dos homens; pois seria totalmente impróprio, que Deus para perdoar apóstatas devesse expor o seu próprio Filho ao desprezo. Então, são totalmente indignos de obter misericórdia. Mas a razão pela qual, ele diz que Cristo seria assim crucificado novamente, é porque morremos com ele com o propósito de viver uma vida nova; quando, portanto, qualquer retorno como este fosse para a morte, eles precisariam de outro sacrifício, como veremos no décimo capítulo.

“Crucificando para si mesmos” significa tanto quanto neles se encontra. Porque este seria o caso, e Cristo seria caluniado caso isto triunfasse, se fosse permitido aos homens voltarem a ele depois de terem caído e lhe abandonado. (Calvino cita este último período como sendo uma hipótese impossível, a saber, que um autêntico crente viesse a cair definitivamente, pois Deus não o permitirá, pois seria uma afronta e uma derrota para Cristo – Nota do Pr Silvio Dutra).


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