A Causa e o Propósito do Sofrimento – capítulo 18

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Baseado no 15º cap do livro de Jó.

Maior do que o sofrimento físico e pelas perdas que havia sentido, foi o que Jó sentiu pela grande pressão que os seus amigos faziam sobre a sua alma.
Quando estamos em grande estado de fraqueza, angústia, dor, aflição, não queremos ouvir conselhos funestos, mas alguém que se coloque ao nosso lado e levante um clamor a Deus em nosso favor para que nos dê alívio.

É o que todo bom médico procura fazer: aliviar as dores de seus pacientes, e não aumentá-las.
Que médicos de almas eram aqueles amigos de Jó, que só faziam aumentar o seu sofrimento, e que não recuavam diante da constatação do efeito das suas palavras sobre ele?
Eles queriam justificar a Deus condenando o seu servo justo e íntegro.
Não estavam muito distantes dos principais sacerdotes e anciãos de Israel, que tentaram justificar a Deus e a Lei de Moisés, levando Jesus a morrer na cruz.
Não podemos ser aprovados por Deus condenando inocentes, e era justamente isto que estavam fazendo os amigos de Jó.

Mais do que justificar a Deus, os amigos de Jó queriam exibir a grande sabedoria da qual julgavam estarem dotados.
Pavões exibicionistas diante da dor alheia. É algo para ser não apenas temido, mas evitado.
Todavia, quantos destes pavões não são encontrados nas próprias igrejas, exibindo conhecimento teológico enquanto matam almas inocentes, com a sua incapacidade de sintonizarem com a dor alheia.

Que ao menos ficassem calados diante de tais sofrimentos, como Jó apelou insistentemente a seus amigos que o fizessem.
Todavia não lhe deram ouvido e continuaram em sua obstinação, fustigando a sua alma justa, conforme vemos neste 15º capítulo, tentando convencê-lo de que a causa do seu sofrimento era falta de temor e de reverência para com Deus. Principalmente por insistir em afirmar que era justo perante Ele.

Como eles não admitiam que tais sofrimentos não podiam acometer uma alma justa, então concluíram que a causa da aflição de Jó era a iniquidade do seu coração.
Não são poucos os teólogos, especialmente os da confissão positiva e da teologia da prosperidade, que advogam a mesma posição errada dos amigos de Jó.
Eles afirmam que se alguém está sofrendo é por causa do pecado que tenha praticado, ou então por causa da falta de fé para repreender o mal.
Que modo mais simplista e errado de se definir a vida!

Isto não pode ser aplicado como uma regra absoluta, porque se há de fato, sofrimento que é causado por causa de pecados praticados e também pela incredulidade, não se pode, no entanto, diagnosticar todo tipo de sofrimento por esta mera regra estreita.

Como se encaixam nesta regra as seguintes afirmações bíblicas, dentre outras:
“confirmando as almas dos discípulos, exortando-os a perseverarem na fé, dizendo que por muitas tribulações nos é necessário entrar no reino de Deus.” (At 14.22)
“E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições.” (II Tim 3.12)
“Antes em tudo recomendando-nos como ministros de Deus; em muita perseverança, em aflições, em necessidades, em angústias,” (II Cor 6.4)
“Agora me regozijo no meio dos meus sofrimentos por vós, e cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja;” (Col 1.24)
“mas regozijai-vos por serdes participantes das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis.” (I Pe 4.13)
“Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” (Jo 16.33)
“pois vos foi concedido, por amor de Cristo, não somente o crer nele, mas também o padecer por ele,” (Fp 1.29)

Todas estas afirmações bíblicas relativas aos sofrimentos dos justos não poderiam ser entendidas pelos amigos de Jó, se fossem lidas para eles, porque se justificariam como fazem os teólogos da confissão positiva e da prosperidade material, porque não se darão por convencidos até que sejam humilhados por Deus, tal como o Senhor fizera com os amigos de Jó, lhes declarando que os mataria caso Jó não intercedesse em favor deles, e também por conceder a Jó uma vida próspera em dobro, em relação a tudo o que tinha antes de ter sido afligido.

A história não tinha acabado.
Havia ainda capítulos para serem contados, mas como isto foi encoberto por Deus aos amigos de Jó, eles prosseguiram em suas ousadas asseverações, conforme as que vemos nas palavras de Elifaz neste 15º capítulo, que continuou teimosamente justificando a Deus, quando Ele não necessita de nenhum justificador, e o pior de tudo, fazendo-o, por condenar a Jó.

Diferentemente de Jó, aqueles homens se julgavam justos a seus próprios olhos, tal como os fariseus e escribas dos dias de Jesus, simplesmente por entenderem que possuíam um conhecimento elevado acerca de Deus.
Como se julgavam retos por causa deste conhecimento, então eram ímpios todos aqueles, que segundo eles, lhes faltava tal conhecimento, e nisto incluíram o próprio Jó.
Eles definiram o ímpio por esta medida particular que eles haviam criado em suas próprias imaginações, sem que tivessem recebido qualquer revelação específica da parte de Deus.
Então, estes ímpios jamais poderiam ter paz tal como eles, e jamais poderiam esperar algo diferente de uma condenação inapelável.

Veja, que tal como os escribas e fariseus, haviam esquecido, ou não conheciam, os aspectos mais importantes da teologia, que são a justiça, a fé e a misericórdia.
Eles faziam umas poucas coisas que consideravam justas e como sendo toda a vontade de Deus, e se julgavam, portanto, aprovados.
Eles não conseguiam enxergar que por maiores e melhores que sejam as obras dos homens, eles permanecem condenados diante de Deus, sendo salvos exclusivamente por Sua graça e misericórdia, pela simples fé no ato da justiça que nos tem oferecido em Jesus Cristo.

Somos justificados pela justiça de um Outro, a saber: Cristo.
Somos vestidos com a Sua justiça para sermos aceitos por Deus.
Ninguém será justificado por obras que realize ou pelo conhecimento ortodoxo que alegue possuir.

Todavia como o conhecimento incha, os amigos de Jó estavam inchados de orgulho, para que pudessem ser enchidos com o verdadeiro conhecimento que procede de Deus.
Assim, à uma apressada vista, as palavras de Elifaz podem dar a impressão de serem a pura expressão da sabedoria divina, no entanto, não devem ser lidas com os óculos da mente natural, mas com os óculos do Espírito, e então veremos que não passam de afirmações de palha, que não podem resistir ao fogo do justo juízo divino.
Em primeiro lugar, ele desprezou completamente as alegações sábias de Jó sobre a brevidade da vida do homem neste mundo, chamando-as de palavras de vento, e que, portanto, seriam espalhadas pelo vento oriental. Chamou-as de palavras vãs e de nenhuma serventia. No entanto, vimos quão apropriado é dar a devida atenção ao que Jó disse para que não ajuntemos tesouros na terra, senão somente no céu.
Além disso, Elifaz afirmou que Jó estava destruindo a reverência, e impedindo a meditação diante de Deus. Obviamente o dissera porque a verdade incomoda, e impede que devaneios sejam a base da nossa meditação espiritual.

Não se pode, no entanto, prestar-se verdadeiro culto a Deus, ou meditar na Sua presença, sem esta sinceridade de abrir o coração perante Ele, tal como Jó estava fazendo.
Enganam-se os herdeiros do espírito dos escribas e fariseus, pensando que é possível cultuar a Deus com hipocrisia, ou seja, ocultando as reais condições de nossa alma, enquanto nos entregamos a ritos e cerimoniais religiosos.
O problema com os amigos de Jó é da mesma ordem e natureza do problema de todos os hipócritas, ou seja, apesar de serem insinceros diante de Deus, e de não buscarem uma vida verdadeiramente santa, pretendem ainda assim, serem considerados como todos os verdadeiros santos.

Isto nós vemos nas seguintes palavras de inveja amargurada que Elifaz disse a Jó:
“9 Que sabes tu, que nós não saibamos; que entendes, que não haja em nós?
10 Conosco estão os encanecidos e idosos, mais idosos do que teu pai.”
Veja que ele estava afirmando um conhecimento superior de Deus, baseado nas tradições que haviam recebido de seus antepassados.
Não era exatamente este o problema com os escribas e fariseus, que invalidaram a Palavra de Deus, por causa das tradições de seus pais?
A teologia de Jó não era uma teologia recebida por tradição de homens, mas por ser cavada em íntima experiência com Deus.
Isto o homem natural não pode aceitar.
Ele não admite que Deus fale diretamente conosco, e que nos revele a Sua vontade.
Tem que estar seguro em algo que lhe foi dito pelos antepassados. Por algum religioso renomado. E é nisto que firmam suas convicções sobre Deus.

O espírito livre de Jó, que não estava preso a tais tradições era um abuso, uma irreverência, algo insuportável para eles.
Assim como foram Jesus e os apóstolos para os escribas e fariseus em seus dias.
Elifaz disse que Jó estava fazendo pouco caso das consolações de Deus, quando estava sendo privado destas consolações durante o período da sua aflição. Que descaramento! Que falta de sensibilidade e misericórdia! Dizer a alguém que estava sendo consumido com a dor, com a morte todo o tempo diante da sua face, que deveria se alegrar em Deus, e se regozijar por saber que Ele é consolador.

Pessoas que se queixam de suas presentes condições aflitivas, não estão necessariamente se voltando contra Deus, pelas palavras amargas que possam sair de suas bocas, tal como Elifaz estava julgando a Jó incorretamente (v. 13).
Não podemos julgá-los nestas horas difíceis como sendo apóstatas, ou como pessoas que perderam a sua santidade perante Deus.
É muito fácil ser conduzido, como Elifaz foi em seus dias, a um julgamento errado, pensando que a causa dos sofrimentos de tais pessoas é o fato de não serem espirituais, de não obedecerem aos mandamentos de Deus, de não estarem orando ou buscando ao Senhor o tanto quanto deveriam.

E finalmente julgá-los como sendo ímpios e não verdadeiros cristãos, tal como Elizaz fizera em relação a Jó, pelo que deduzira de seus grandes sofrimentos.
É cruel dizer para alguém em tais circunstâncias, como as de Jó:
“Está sofrendo assim porque quer! Não deu a devida atenção à vontade de Deus e olha só o que lhe veio a acontecer!” Se isto é cruel a nossos olhos, imagine aos olhos puros e santos de Deus! Por isso se irou sobremaneira contra os amigos de Jó como vemos no final do seu livro.

Deus se enoja de toda esta justiça farisaica que condena o pecador antes mesmo que ele seja submetido ao juízo divino.
Por isso somos advertidos para não julgarmos para não sermos julgados com o mesmo critério com que julgarmos a outros, porque somos tão pecadores quanto eles, sendo justificados gratuitamente por Cristo, por causa da Sua exclusiva graça e misericórdia.
Todavia, a natureza terrena nos leva sempre a nos compararmos com outros e a nos julgarmos melhores do que eles, ou então a estarmos em melhores condições perante Deus do que eles, em razão de não praticarmos as mesmas coisas que costumam praticar ou por não vivermos tal como eles.
Devemos vigiar constantemente contra este espírito que nos torna inúteis para ajudar o nosso próximo, tal como os amigos de Jó no passado.


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