Um dia quase perfeito

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Porque todos se foram? Cadê aquela gente toda que estava aqui comigo? Nossa; não acredito que está acontecendo de novo, comigo não. Quer dizer que todos aqueles aplausos e toda aquela comemoração era só de momento?

Na verdade quando olho para trás eu vejo que a minha vida sempre foi assim. Desde pequenininho sempre me achei meio estranho, mais frágil do que os outros da minha idade, às vezes até mais feio do que os demais. Sabe quando você sente que não é bem vindo naquele lugar? Pois é, era assim que eu me sentia sempre que saia com a turma. Passeávamos no bosque, gostávamos de ficar saltando e pulando o tempo todo. Era bem legal as brincadeiras, pena que eu era sempre o último a ser escolhido, quando me escolhiam, é claro. Mas tinha uma coisa que eles sempre deixavam pra mim; eram aquelas piadas nojentas que me faziam de tonto e me envergonhavam na frente de todos. Como eu chorava com aquilo, até hoje choro quando me lembro daqueles dias. Também lembro da minha mãe vindo ao meu encontro e dizendo baixinho: Um dia todos eles vão sentir inveja de você, com certeza você terá o seu dia de triunfo sobre eles.

Aquelas palavras de minha mãe eram como uma vitamina que me dava força para levantar a cabeça e seguir em frente, e isso eu fiz, pois mesmo me sentindo rejeitado e humilhado sempre marquei presença no meio deles para que nunca se esquecessem de mim, principalmente naquele grande dia.
Passado algum tempo, aquilo que eu tanto esperava e que talvez nem acreditasse realmente aconteceu. Jerusalém estava em festa, eu logo percebia isso pela quantidade de pessoas que passavam na nossa aldeia indo para a Cidade Santa. Era fácil fazer novas amizades e mais fácil ainda era perdê-las, pois eles só ficavam na vila o tempo preciso para repor as energias e continuar sua jornada à Jerusalém. Se eu pudesse ia junto com eles! Nunca tinha ido à festa, minha mãe sempre me dizia que eu ainda era novo de mais para tal façanha. Mas era o que eu mais queria, ir a Jerusalém. Talvez fosse por isso que quando as caravanas estavam se encerrando eles nos prendiam, vai ver sabiam o que eu estava planejando.

Certo dia mamãe e eu estávamos descansando junto ao curral quando de repente surgiram dois homens bastante eufóricos. Foi tudo tão rápido que antes mesmo de entender o que estava acontecendo eles me levaram. – Mamãe, mamãe, eu gritava enquanto eles me arrastavam para longe de casa.
Eu não parava de pular e dar patadas naqueles caras até que senti uma mão forte e ao mesmo tempo suave tocar no meu pescoço. Pronto, parecia que ele tinha me anestesiado, todo o medo que eu estava sentindo foi embora e um alívio tomou conta de mim como se tudo o que eu precisasse era apenas deixar que aquele homem tomasse conta de mim.
Não sabia bem quem ele era, mas uma coisa eu sabia, que naquele homem eu poderia confiar e confiei. Agora era diferente pensei, não estou mais sozinho, achei um amigo que gosta de andar comigo e me trata com carinho. Tem mais, eu era só dele, e ele era só meu, ele não me dividia com mais ninguém. O passeio estava tão bom que mal percebia para onde ele estava me levando até que levantei os olhos e vi aquele corredor formado por uma grande multidão que acenava e cantava bem alto: bendito é o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas.

Rei? Ele é Rei? Quer dizer que eu estava andando com o grande Rei e não havia percebido? Seria esse o grande dia que minha mãe tanto me falou? Claro que sim, de um lado uns abanavam suas folhagens, do outro, estendiam seus panos em adoração e no meio deles, eu; eu e o meu amigo Rei. Quem te viu e quem te vê!!!! Até que em fim eles haviam reconhecido que eu também era legal. Não poderia existir um dia mais perfeito do que este.

Eu Pensava comigo mesmo, agora tudo vai ser diferente, nunca mais vou andar sozinho pelos campos e todos vão querer ser meus amigos. Não via a hora de chegar na porta da cidade e me despedir do meu amigo Rei. Ele mais uma vez acariciou o meu pescoço e seguiu o seu destino rumo à Cidade Santa. Eu não conseguia tirar os olhos dele, fiquei observando os seus passos até o momento em que a multidão o cobriu da minha vista e já não havia outra coisa a fazer a não ser voltar para minha casa.

Girei o corpo rapidamente e ergui a cabeça para ver quantos estavam ali me esperando para voltar comigo. – Cadê todo mundo? Pessoal, eu estou aqui, cadê vocês, porque vocês estão se escondendo de mim? Sou eu, lembra? Não precisou mais do que 2 minutos para perceber que estava sozinho. Todos tinham ido com o meu amigo Rei. Embora eu tivesse ficado ligeiramente decepcionado, precisava entender que eles estavam com a razão, afinal de contas Ele era o Rei, e eu, um simples jumento.

Tarcísio Alves


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