Ir a Cristo para Ser Aliviado

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“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei.” (Mateus 11.28)

“Vinde a mim todos que os que estais cansados e sobrecarregados”. Jesus convida gentilmente para si aqueles a quem reconhece estarem aptos para se tornarem seus discípulos. Embora ele esteja pronto para revelar o Pai a todos, todavia a maior parte é descuidada sobre ir a ele, porque eles não são afetados por uma convicção de suas necessidades. Muitos não têm qualquer preocupação a respeito de Cristo, porque estão intoxicados com a sua própria justiça, e nem têm fome e sede (Mateus 5. 6) da sua graça.

Aqueles que são devotados ao mundo não dão qualquer valor à vida celestial. Seria em vão, portanto, Cristo convidar cada uma destas pessoas, e, portanto, ele se vira para os miseráveis e aflitos. Ele fala deles como sobrecarregados, ou gemendo e cansados sob um fardo, e não se refere necessariamente àqueles que estão oprimidos por dor e dissabores, mas àqueles que são oprimidos por seus pecados, que estão cheios de temor do juízo de Deus, e que estão prontos para afundar sob tão pesado fardo.

Existem vários métodos, de fato, pelos quais Deus humilha seus eleitos; mas como a maior parte daqueles que estão sobrecarregados com aflições ainda permanece obstinada e rebelde, Cristo define como pessoas cansadas e oprimidas, aqueles cujas consciências estão angustiadas por causa da sua exposição à morte eterna, e que estão interiormente tão pressionados por suas misérias que eles desmaiam; para que por este mesmo desmaio os prepare para receber a sua graça. Ele nos diz que a razão pela qual a maioria dos homens despreza a sua graça é porque não estão sensatos da sua pobreza espiritual; mas que não há nenhuma razão para que o seu orgulho ou insensatez devam manter almas aflitas tanto tempo longe para o alívio.

Vamos, portanto, nos despedir de todos os que, enredados pelos laços de Satanás, também estão convencidos de que eles possuem a justiça de Cristo, ou imaginam que estão felizes neste mundo. Que as nossas misérias nos levem a buscar a Cristo; e como ele não admite ninguém para desfrutar do seu descanso, senão aqueles que estão afundando sob o fardo, vamos aprender, que não há nenhum veneno mais mortal do que a negligência, que é produzida em nós, quer pela felicidade terrena, ou por uma opinião falsa e enganosa de nossa própria justiça e virtude. Que cada um de nós trabalhe diligentemente para despertar, em primeiro lugar, por vigorosamente sacudir as luxúrias do mundo; e, por outro, deixar de lado toda a falsa confiança. Agora, embora esta preparação para ir a Cristo lhes torne como homens mortos, no entanto, deve ser observado, que isto é o dom do Espírito Santo, porque é o início do arrependimento, para que nenhum homem confie em sua própria força. Cristo não tinha a intenção de mostrar o que o homem pode fazer de si mesmo, mas apenas nos informar quais devem ser os sentimentos daqueles que vêm a ele.

Aqueles que limitam o fardo e o cansaço às cerimônias da Lei, têm uma visão muito estreita ao interpretarem estas palavras de Cristo. Eu reconheço, que a Lei de Moisés foi intoleravelmente pesada, e opressora para as almas dos adoradores; mas devemos ter em mente o que eu disse, que Cristo estende a mão a todos os aflitos, e, portanto, estabelece uma distinção entre seus discípulos e aqueles que desprezam o Evangelho. Mas temos de atender à universalidade da expressão; porque Cristo incluiu todos, sem exceção, que estão cansados e oprimidos, de modo que nenhum homem possa fechar o portão contra si mesmo por dúvidas ímpias. E, no entanto todas essas pessoas são poucas em número; porque, entre a multidão inumerável daqueles que perecem, poucos estão conscientes de que estão perecendo espiritualmente. O alívio que ele promete consiste no livre perdão dos pecados, o único que pode nos dar a paz.

(Nota do Pr Silvio Dutra: Ficamos surpreendidos com o modo como Calvino apresenta o assunto, uma vez que estas palavras de Jesus têm sido interpretadas sob o enfoque da auto-ajuda, ou consolação psicológica para pessoas que estão desanimadas e sofridas. A abordagem de Calvino pode portanto até mesmo espantar, e ser considerada dura e áspera, todavia é a mais pura expressão da verdade quanto ao único modo de se achar a real consolação e salvação em Jesus, e portanto, é uma fiel interpretação das palavras do Mestre, pois se acha em conformidade com todo o restante do Seu ensino e significado da Sua missão redentora.)

Achando Descanso Tomando o Jugo Suave de Jesus

“29 Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma.
30 Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” ((Mateus 11.29,30)

“Tomai o meu jugo sobre vós”. Percebemos que muitas pessoas abusam da graça de Cristo, transformando-a em uma satisfação da carne; e, por conseguinte Cristo, depois de prometer descanso alegre para as consciências miseravelmente angustiadas, lembra-lhes, ao mesmo tempo, que ele é seu Libertador sob a condição da submissão ao Seu jugo. Ele não absolve, ele nos diz, os homens de seus pecados, de tal maneira, que, restaurados ao favor de Deus, eles possam pecar com maior liberdade, mas que, levantados por Sua graça, também possam tomar o seu jugo sobre eles, e que, por serem libertados em espírito, possam conter a libertinagem da sua carne. E portanto, obtém-se uma definição do que é o descanso do qual ele tinha falado antes em Mateus 11.28. Não se trata de isentar os discípulos de Cristo da guerra da carne, para que possam se divertir à vontade, mas para treiná-los sob o peso da disciplina, e mantê-los sob o jugo da obediência à Palavra de Deus.

“Aprendei de mim”. É um erro, eu acho, supor que Cristo aqui nos assegura de sua mansidão, para que os seus discípulos, sob a influência do medo, que é geralmente experimentado ao nos aproximarmos de pessoas distintas, não permanecessem a uma distância dele por conta de sua Glória divina. É, antes, o seu desígnio nos formar para a imitação de si mesmo, porque a obstinação da carne nos leva a fugir do seu jugo. Logo a seguir, ele acrescenta,o meu jugo é suave, mas como poderia algum homem vir a ele voluntariamente e gentilmente dobrar a sua cerviz, a não ser por se colocar em mansidão, para se amoldar ao padrão de Cristo? Que este é o significado das palavras é simples; porque Cristo, depois de exortar os seus discípulos a suportarem o seu jugo, e desejando preveni-los de serem intimidados por suas dificuldades, acrescenta imediatamente, “aprendei de mim”; declarando assim que, quando o seu exemplo tiver nos acostumado à mansidão e à humildade, vamos deixar de sentir o seu jugo como sendo algo pesado. Para o mesmo fim, ele acrescenta, “vou aliviar vocês”.
Enquanto a carne prevalece, nos rebelamos; e aqueles que recusam o jugo de Cristo, e se esforçam para apaziguar a Deus de qualquer outra forma, se angustiam em vão.

Texto de João Calvino, traduzido e adaptado por Silvio Dutra.


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