A Bíblia é a palavra de Deus

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Recebi há dias, uma mensagem que me foi enviada por um dos mais respeitáveis pastores de Lisboa, que visitou a minha página na internet, em que me fazia a seguinte pergunta:

Visitando a sua página na Internet, deparei-me com isto que o irmão escreveu:

“Tenho influência de várias igrejas, em especial a Presbiteriana, a Batista e Igreja dos Irmãos. Aceito a Bíblia, não como um todo homogéneo, mas como a revelação gradual de Deus ao mundo, que teve o seu ponto mais alto na revelação de Jesus Cristo.”

A minha pergunta é no sentido de saber se o irmão não aceita a Bíblia como inspirada pelo Senhor e a nossa única regra de fé e prática, e se a Bíblia não é a Palavra de Deus?

Admitindo que mais visitantes da minha página possam ter a mesma dúvida, decidi publicar a minha opinião sobre o assunto.

Prezado Pastor ……………

Em primeiro lugar as minhas desculpas pela demora em responder ao seu email …………………. pelo que só hoje vou responder às suas perguntas que muito agradeço, pois assim me ajudam a preencher uma lacuna que certamente ficou no que escrevi.

 1) “… o irmão aceita a Bíblia como inspirada pelo Senhor… ?”

Julgo que a primeira referência ao assunto da inspiração bíblica foi do chamado Santo Agostinho: «E assim, como tudo quanto afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, por isso mesmo se deve acreditar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas sagradas Letras.»

Esta declaração de Santo Agostinho foi incluída no Concílio de Trento e reafirmada no Concílio Vaticano II na Constituição dogmática sobre a revelação divina em 18/Novembro/1965 com 2350 votos favoráveis e 6 votos contra. 

Muitos protestantes ou evangélicos desconhecem a origem desta afirmação doutrinária, que defendem como se fosse uma declaração genuinamente protestante.

No entanto, não é o facto de se tratar duma declaração do Concílio de Trento, e do Vaticano II, nem o facto de ser aceite pela maioria dos pastores evangélicos em Portugal que nos deve levar à nossa rejeição ou aceitação.

Mas há ainda outro problema. O que entendemos por inspiração bíblica?

Certamente que aceito a Bíblia como inspirada por Deus. Mas penso que não basta esta afirmação, se não disser o que entendo por inspiração, pois há várias ideias sobre o assunto.

Por exemplo, os islâmicos dizem que o Alcorão é inspirado porque Deus ditou tudo que Maomé escreveu. Embora isso seja problema deles, quero dizer que a noção que tenho de inspiração bíblica não tem nada que ver com esta ideia.

Deus não ditou nada a ninguém, mas inspirou, isto é, deu uma ideia, uma experiência religiosa que cada escritor bíblico registou, certamente o melhor que lhe foi possível e da forma mais compreensível para os seus contemporâneos a quem a mensagem geralmente se destinava, isto é, no seu contexto histórico e cultural. Assim, por exemplo, se eles entendiam a terra segundo a concepção cosmogónica antiga, como sendo uma espécie de prato invertido, à superfície das águas, assente em colunas, com os vários céus (céu sideral, oceano celeste, céu empíreo) por cima etc, foi nesta concepção que a mensagem foi transmitida nessa época, pois a Bíblia não é, nem nunca pretendeu ser um livro científico nem um livro de charadas. Os textos bíblicos são a revelação de Deus da forma mais compreensível para o homem das várias épocas em que foi escrita.

O que seria da Bíblia, se fosse um livro científico, que estivesse de acordo com as últimas descobertas da ciência dos nossos dias? Então, não teria sido compreendida durante todos estes séculos, teria uma grande aceitação nos nossos dias, e daqui a duas gerações seria rejeitada como antiquada e ultrapassada. 

Portanto, se quisermos saber qual a mensagem bíblica, temos de “ouvir” os seus personagens no seu tempo, na sua cultura, no seu lugar na história, em especial em passagens veterotestamentárias.

A única passagem bíblica que conheço e que muitas vezes é citada sobre o assunto está em II Timóteo 3:16  «Toda a Escritura, divinamente inspirada, é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça;» Embora aqui se fale de inspiração, penso que será arriscado da nossa parte, tentar aprofundar o assunto. Tudo que for além disto será palavra da teologia e não palavra da própria Bíblia.

Além disso, não nos podemos esquecer de que quando Paulo escreveu esta carta a Timóteo, eles não tinham a Bíblia impressa num único livro como temos hoje. Havia vários livros (rolos) nas várias sinagogas, pois o cânon veterotestamentário só ficou decidido, segundo se supõe no ano 90 depois de Cristo, na cidade de Jâmnia, e o cânon neotestamentário começou a ser formado no século II, mas sem o livro do Apocalipse. Quando Paulo escreveu estas palavras, ainda nem existia a maior parte dos nossos livros do Novo Testamento.

 2) “… e nossa única regra de fé e prática …..?”

Aceito a Bíblia como a única regra de fé e prática. Será que o prezado irmão tem outra alternativa melhor?  Certamente que não.

Agora, ao fazer tal afirmação, devo mencionar que não considero a Bíblia como um todo homogéneo. Não considero por exemplo o livro de Levítico ou Deuteronómio com a mesma importância que o Evangelho de João, ou a carta aos Gálatas.

Considero a Bíblia como a revelação gradual de Deus ao homem, revelação que foi sempre a revelação possível. Não para Deus evidentemente, que é omnipotente, mas possível de ser compreendida pelo homem.

Assim, no tempo de Moisés, para Israel que nessa época da história era um “bando” de escravos indisciplinados, conflituosos, volúveis, habituados a viver sob o chicote e a pena de morte, certamente que a Lei de Deus tinha de ser rígida e implacável. Mas mesmo ao longo do Velho Testamento, vejo uma gradual evolução na maneira como Deus se revelava a Israel. Os primeiros versículos de Isaías são uma boa prova disso, em especial o vr.11, em que Deus rejeita o que certamente estava de acordo com todos os pormenores dos rituais da época. Nessa altura, Deus esperava mais do crente.

Quando afirmo que considero a Bíblia como a única regra de fé e prática, refiro-me ao todo bíblico e não somente a passagens isoladas, caso contrário estaria a defender a pena de morte para quem não descansasse ao sábado ou a defender que uma viúva sem filhos fosse viver maritalmente com o cunhado, como mandava a Velha Lei. A cúpula, ou a conclusão de todo o pensamento bíblico são os evangelhos, a palavra de Jesus. Esse é o único padrão, a única regra de fé e ordem que aceito. Poderei no entanto, tornar extensiva essa afirmação a toda a Bíblia, na medida em que toda a Bíblia é necessária para se compreender as afirmações de Jesus no seu contexto histórico e cultural.

 3) “…. e se a Bíblia não é a Palavra de Deus?”

Não aceito a afirmação de que a Bíblia é a Palavra de Deus, mas não vejo inconveniente em afirmar que “a Bíblia é Palavra de Deus”, (sem o a) desde que possa explicar o que entendo por tal afirmação.

Quero em primeiro lugar dizer que esta afirmação não é de Jesus, nem sequer é bíblica, mas é afirmação da teologia, e portanto não a podemos aceitar precipitadamente, mas temos de examinar o que isto significa.

Encontramos na Bíblia a transcrição de várias afirmações de Deus, já no Velho Testamento: Palavras dirigidas a Adão Génesis 3:9/19, a Jacob Génesis 35:1 , a Moisés Génesis 3:5s, além das afirmações de Jesus nos evangelhos. Mas também encontramos afirmações de Satanás no terceiro capítulo de Génesis, no primeiro capítulo de Job e no quarto capítulo de Mateus e Lucas.

No entanto, com a afirmação de que a Bíblia é Palavra de Deus, quero significar que a Bíblia foi escrita para nos revelar a Palavra de Deus, que é Cristo, como veremos adiante.

Há quem prefira afirmar que a Bíblia contém a palavra de Deus. Há cerca de 30 ou 40 anos houve uma grande polémica sobre isso. Pessoalmente, penso que é tempo perdido. O importante é saber o que se entende por tal afirmação.

Ainda relacionado com este assunto, quero lembrar, por exemplo que na antiga declaração de fé da Aliança Evangélica Portuguesa se afirmava acreditar em vários artigos, afirmando o artigo 2º “A divina inspiração, autoridade e suficiência das Sagradas Escrituras, que constam no Velho e no Novo Testamento.” Nessa altura eu era membro da AEP.

A partir de certa altura, aceitaram a nova declaração de fé, que julgo ainda estar em vigor, que sobre o assunto afirma no seu artigo 5º. “Cremos na inspiração divina e total das Escrituras Sagradas, na Sua suprema autoridade como única e suficiente regra em matéria de fé e de conduta e que não existe qualquer erro ou engano em tudo que ela declara.” Esta redacção já não aceito, e foi por esse motivo que a partir desse ano pedi a demissão de membro da AEP. Lamento que o preciosismo de certos pastores devido à sua teologia, tenha levado a adoptar uma redacção tão restritiva, quando um documento destes deveria ser o mais abrangente possível sem entrar em pormenores doutrinários desnecessários.

Vejo grandes dificuldades em manter esta afirmação, não só porque por vezes há divergências entre as várias cópias dos manuscritos, como também em certas contradições da própria Bíblia, em que as cópias dos manuscritos são unânimes e que em nada afectam a sua mensagem e considero enganos do próprio escritor.

Certamente que o irmão irá perguntar: Então diga onde estão as contradições?

Por exemplo, quantas vezes cantou o galo depois de Pedro negar a Jesus três vezes?  

Veja em:

Mateus 26:34 e Mateus 26:74/75

Marcos 14:30 e Marcos 14:68/72

Lucas 22:34 e Lucas 22:60/61

João 13:38 e João 18:27

Poderia também fazer a pergunta: Perante quem é que Pedro negou a Jesus? Chegaríamos à conclusão de que foram mais de três pessoas.

Mas a melhor passagem em que vejo que a Bíblia não se preocupa com estes preciosismos que são o passatempo favorito de muitos crentes do nosso tempo, é em I Coríntios 1:14/17. 

Depois de Paulo afirmar no vr.14 que só tinha batizado Crispo e Gaio, quando chega ao vr.16 lembra-se da família de Estéfanas e acaba esse versículo admitindo que se possa ter esquecido de mais alguém. Portanto a sua afirmação do vr.14 estava errada. E o que fez Paulo? Rasgou tudo, porque estava a escrever um documento em que não podia haver qualquer erro ou engano?

Nessa altura, os nossos teólogos ainda não tinham “descoberto” essa doutrina, pelo que Paulo, com toda a naturalidade, faz a correcção e continua, não se preocupando com esse pormenor, porque ele não estava fornecendo nenhum relatório com estatísticas dos seus batismos para ser aprovado por qualquer junta missionária, mas estava a tratar de assuntos bem mais importantes.

Para concluir, quero mencionar João 1:1 «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.» (segundo Ferreira de Almeida)

«No princípio de tudo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e ele mesmo era Deus.» (segundo a Boa Nova)

Não pode haver a mínima dúvida de que Jesus, o Cristo, é o Verbo de Deus, ou a Palavra de Deus. Eu prefiro afirmar que só Jesus, o Cristo, é a Palavra de Deus. No entanto, penso que a nossa língua permite, como figura de retórica (sinédoque ou metonímia), afirmar que a Bíblia é Palavra de Deus, ou que vamos ao culto ouvir a Palavra de Deus, quando é um pastor ou pregador leigo a falar. Quer isto significar, que a Bíblia foi escrita para nos revelar a Palavra de Deus, ou que a pregação é elaborada para apresentação da Palavra de Deus, que é somente Jesus, o Cristo. O próprio Jesus também utilizou esta liberdade de expressão em Lucas 16:29 «….Têm Moisés e os profetas: ouçam-nos.» Se eles tinham Moisés e os profetas pelo facto de terem as Escrituras, também nós temos a Cristo, ou temos a Palavra, pelo facto de termos as nossas bíblias.

São liberdades de expressão, que a nossa língua permite e que eu aceito, desde que não afectem a afirmação central e bíblica de que Jesus o Cristo é, não somente Palavra de Deus, mas a Palavra de Deus.

Prezado Pastor, esta é a minha posição em face dos assuntos que me colocou.

Bem sei que não é bem coincidente com os ensinos de muitas igrejas, mas é aquilo em que creio e que tenho defendido tanto nas igrejas, como à mesa do café ou no convívio com os amigos.

Embora me considere protestante, eu não tenho qualquer compromisso com qualquer igreja protestante, católica ou ortodoxa, pois só o pensamento de Jesus me interessa, mas ao ser indenominacional, procuro não ser anti-denominacional.

Estou pronto a dar a minha opinião em todos estes assuntos, mas gostaria de deixar claro que a minha página, a “Estudos bíblicos sem fronteiras teológicas”, não se destina a divulgar a minha opinião, mas a criar um espaço não comprometido com qualquer escola ou linha teológica onde todos possamos conversar e trocar ideias que sejam fruto da nossa própria reflexão e estudo bíblico, pois tenho notado uma certa falta de liberdade de expressão nas nossas igrejas e revistas evangélicas.

Embora, de momento, eu não me sinta incentivado a aprofundar este assunto, pois penso que não podemos ir muito além sem deixarmos os fundamentos bíblicos para seguirmos a nossa própria imaginação, eu prefiro dizer que mais não sei, mas pode ser que outros irmãos ou mesmo o prezado Pastor queiram dar as suas opiniões, pois como já afirmei, a minha página não se destina a divulgar só a minha opinião.

Agradeço portanto os seus comentários se me puder dar mais alguma achega que seja fruto da sua experiência e reflexão pessoal.


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