Nem Toda Separação de Igrejas é Cisma (divisão) – Parte 2

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Tradução e adaptação de Citações do Tratado de John Owen sobre cisma feitas pelo Pr Silvio Dutra, com comentários e notas inseridos pelo tradutor.

Negamos que os apóstolos tenham feito ou dado quaisquer regras para as igrejas dos seus dias, ou para uso das igrejas das eras futuras, a fim de indicarem e determinarem modos externos de culto, com a observância das cerimônias, das festas e jejuns estabelecidos, além do que é de divina instituição, liturgias ou formas de oração, ou disciplina a serem exercidas nos tribunais subservientes a um governo eclesiástico nacional. Então, de que utilidade elas são ou podem ser, que benefício ou vantagem pode advir à Igreja por meio delas, qual a autoridade dos magistrados superiores com respeito a elas, não podemos pesquisar ou determinar agora. Só dizemos que nenhuma regra para estes fins jamais foi prescrita pelos apóstolos, pois:

1. Não há a mínima insinuação de que alguma regra desse tipo foi dada por eles nas Escrituras.
2. As primeiras igrejas depois do tempo deles, nada sabiam de qualquer regra dessas dadas por eles; e, portanto, depois que elas começaram a afastar-se da simplicidade em coisas como o culto, a ordem e as normas ou a disciplina, elas se entregaram a uma grande variedade de observâncias externas, ordens e cerimônias, quase todas as igrejas diferindo numa ou noutra coisa umas das outras, nalgumas dessas observâncias, não obstante todas “mantendo a unidade da fé pelo vínculo da paz”. Elas não teriam feito isso, se os apóstolos tivessem prescrito certa regra à qual todas deveriam adaptar-se, especialmente considerando quão escrupulosamente elas aderiam a tudo quanto era relatado como tendo sido feito ou dito por qualquer dos apóstolos, fosse o relato falso ou verdadeiro.

Primeiro, a unidade que nos é recomendada no evangelho é espiritual.
Segundo, para este fundamento da unidade do evangelho entre os cristãos, pelo seu melhoramento e para este, requer–se uma unidade de fé.
Terceiro, há uma unidade de amor.
Quarto, Cristo Senhor, por Sua autoridade como Rei, instituiu ordens para o governo, e ordenanças para o culto (Mat 28.19,20. Ef 4.8-13) para serem observadas em todas as Suas Igrejas.

Essa é a natureza da união. Em seguida surge a questão: como se deve preservar essa união? Aqui ele tem algumas coisas excelentes para dizer.
Ora, para que esta união seja preservada, requer-se que todas aquelas grandes e necessárias verdades do evangelho, sem cujo conhecimento ninguém pode ser salvo por Jesus Cristo, sejam cridas e igualmente sejam externas e visivelmente professadas, naquela variedade de modos pelos quais eles são ou podem ser chamados para isso” – Aqui Owen está contemplando principalmente as doutrinas da graça (eleição, justificação pela graça mediante a fé, regeneração etc) muito mais do que os mandamentos da lei de Moisés, porque uma Igreja deve primar pela graça e verdade reveladas em Cristo mais do que pela Lei que foi dada através de Moisés.

Não haverá união, se não houver acordo sobre as verdades do evangelho. É uma união espiritual, porém é também uma união de fé. Se houver desacordo acerca da fé, não haverá união entre o evangélico e o homem que nega os pontos essenciais da fé evangélica. É impossível.
Por exemplo, um pastor pelagiano que afirme a salvação pelas obras, como pode ter a direção sobre um rebanho que afirme a verdade de que a salvação é pela graça somente mediante a fé, sem as obras? Como pode haver reconciliação neste caso? A separação já está determinada pela própria negação da verdade bíblica.
Não somente é preciso que não haja desacordo aberto, explícito; também é preciso que não haja nenhum desacordo implícito.

Que nada seja opinião, erro ou falsa doutrina, que perverta ou desfaça qualquer das verdades necessárias e salvadoras professadas nos termos acima referidos, seja acrescentado a essa profissão, ou nela incluído, ou deliberadamente professado também.
Não há, em relação à igreja de Corinto, nenhuma menção de qualquer homem em particular, ou qualquer número de homens que se separaram das reuniões de adoração de suas respectivas igrejas, nem discorre o apóstolo sobre qualquer coisa a seu cargo, mas claramente declara que todos os coríntios continuaram na participação da adoração e obrando juntos os serviços da Igreja, sem causar diferenças entre si, como vou mostrar depois.

Todas as divisões de uma igreja em relação a outra, ou de outras, em relação a uma qualquer, ou pessoas de qualquer igreja ou igrejas, são coisas de outra natureza, podem ser boas ou más dependendo das circunstâncias, e nem tudo o que há no relato das Escrituras sobre isto não pode ser chamado pelo nome de cisma, e por isso elas não se referem a estas divisões pelo citado nome, como por exemplo as muitas seitas do antigo judaísmo, que eram apóstatas, mas não cismáticos, e nisto podem ser incluídos os próprios samaritanos que adoravam o que eles não conheciam, João 4.22.

(De igrejas em relação a igrejas podemos citar o exemplo da igreja da circuncisão e a da incircuncisão, entregues respectivamente ao cuidado dos apóstolos em Jerusalém, e a Paulo para a igreja dos gentios, e no entanto não se fala e não deve ser falado que a igreja dos gentios era cismática em relação à que havia em Jerusalém. – nota do tradutor).

Para que haja o pecado de cisma, quanto a todos os que estiverem debaixo desta culpa, é necessário:
1. Que sejam membros, ou pertençam a alguma igreja, que é assim instituída e nomeada por Jesus Cristo.
2. Que levantem, entretenham e persistam em diferenças sem causa com outros daquela igreja, para interromper o exercício do amor que deve existir entre eles, em todos os seus frutos, e a perturbação do devido exercício das funções necessárias da igreja, na adoração de Deus.

3. Que essas diferenças sejam ocasionadas por coisas que sejam contrárias à adoração de Deus.
O cisma não é contado como algo contra as pessoas dos demais cristãos ou mesmo dos oficiais da Igreja, mas sempre é um desprezo da autoridade de Jesus Cristo, o grande soberano Senhor e cabeça da Igreja. Quantas vezes ele nos mandou suportarmos uns aos outros, e para nos perdoarmos mutuamente, para que tendo paz entre nós, possamos ser conhecidos como seus discípulos.

(Não podem ser considerados como cismas as eventuais discórdias entre cristãos, porque estas podem e devem ser tratadas pelo exercício da longanimidade e do perdão, conforme somos ordenados pelo Senhor em sua Palavra – nota do tradutor).

A sabedoria pela qual nosso Senhor tem ordenado todas as coisas em sua igreja, com o propósito definido, de prevenir cisma – divisão, não deve ser desprezada. Cristo, que é a sabedoria do Pai, 1 Coríntios 1.24, a pedra sobre a qual estão sete olhos, Zac 3.9, sobre cujos ombros está posto o governo, Isa.9.6,7, tem em sua infinita sabedoria assim ordenado que todas as funções, ordens, dons, e administrações de, e em sua igreja, de tal maneira que o mal não possa ter qualquer lugar. Manifestar isto, é o desígnio do Espírito Santo, Rom 12.3-9; 1 Coríntios 12; Ef 4.8-14.

A consideração em particular desta sabedoria de Cristo, adequando os oficiais de sua igreja, em relação aos lugares que ocupam, da autoridade com que são investidos por ele, a forma em que eles são inseridos em sua função, distribuindo os dons de seu Espírito em variedade maravilhosa, em vários tipos de utilidade, e em tal distância e dessemelhança dos membros particulares, conforme a devida e correspondente proporção dando formosura e beleza ao todo, dispondo a ordem de sua adoração, e as ordenanças diversas em especial, para serem expressivas do maior amor e união, direcionando todos eles contra essas divisões sem causa, e para que possam ser usados com este propósito.

A graça e a bondade de Cristo, pelas quais ele tem prometido nos dar um só coração e um só caminho, para nos dar a paz, que o mundo não pode dar, com inúmeras outras promessas de semelhante importância, são desconsiderados portanto, quando há cisma.
Até que ponto o exercício do amor é obstruído por isso, que tem sido declarado. A consideração da natureza, excelência, propriedade, efeitos e a utilidade desta graça do amor em todos os santos em todas as suas formas, a sua designação especial por nosso Senhor e Mestre, para ser o elo de união e perfeição, na forma e ordem instituídas para a celebração graciosa das ordenanças do evangelho, irá adicionar peso a esta agravação, a saber, ao cisma.

O seu constante crescimento (do cisma) para um mal ainda maior, e, em alguns a apostasia de si mesmos, implica seu término normal em contendas, debates, más suspeitas, iras, confusão, distúrbios públicos e privados, também são estabelecidos à sua porta.

(Temos visto até aqui que o cisma é algo que é inerente ao comportamento humano, e como não há em qualquer igreja, o poder implícito para ter domínio sobre a fé dos fiéis, e moldá-los àquela perfeição espiritual que agrada a Deus, e como não há também a necessidade de que as pessoas devam renunciar aos seus respectivos interesses civis para serem membros de uma igreja, então, não se pode determinar pela análise do conjunto de membros se uma igreja é cismática ou não, até mesmo porque sempre haverá o joio em qualquer congregação local.

Se aqueles que estão encarregados em dirigir os assuntos da igreja, e os demais membros que se mantêm fiéis à Palavra, mantêm o padrão bíblico das sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e dos seus apóstolos, inclusive pelo testemunho de prática de suas próprias vidas, suas igrejas não podem ser chamadas de cismáticas, e muito menos de apóstatas, caso haja nela membros ou pessoas na citada condição, as quais a propósito devem ser submetidas à disciplina prescrita por Cristo, tão logo chegue ao conhecimento público o procedimento de tais pessoas insubordinadas à regra de Cristo.

Os protestantes são acusados pela igreja Romana de cismáticos; os puritanos independentes e não conformistas eram acusados pela Igreja Nacional da Inglaterra – Anglicana, também de cismáticos, e o argumento sempre foi e será este de não estarem simplesmente compondo os seus quadros. E o mesmo critério é usado por denominações cristãs quando há a migração de crentes ou mesmo congregações para outras denominações ou para a forma independente de reunião, conforme era a da maioria dos puritanos dos séculos XVI a XVIII – nota do tradutor).


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